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Análise: Esoteric Ebb

Falar consigo mesmo nunca foi tão imprevisivo, engraçado e problemático

Esoteric Ebb é um RPG narrativo que é praticamente impossível não comparar com o excelente Disco Elysium. A estrutura é semelhante, com foco intenso em diálogos, testes de habilidade, construção de personagem e uma narrativa moldada por escolhas. A diferença está na ambientação.

Aqui, o cenário abandona o realismo urbano e abraça a fantasia clássica, com clara inspiração em Dungeons & Dragons. Grifos, goblins, clérigos, intrigas políticas e rolagens de D20 fazem parte do pacote. O resultado é um RPG que mistura investigação, humor e imprevisibilidade de mesa em um formato digital.

Felizmente, já posso adiantar que a proposta de Esoteric Ebb é ambiciosa e a execução, em grande parte, acompanha essa ambição. Infelizmente, o jogo não possui legendas em PT-BR.

Um crime durante o período eleitoral

Em Esoteric Ebb, você assume o papel de um clérigo enviado a uma cidade para investigar a explosão de uma loja de chá. A premissa já começa deslocando o jogador: antes mesmo de entender o que está acontecendo, o personagem desperta como se tivesse morrido.

Logo no início, o jogo revela que você foi resgatado por um pescador após se afogar. Ou seja, além de investigar a explosão, há uma questão pessoal urgente: por que você se afogou? Foi acidente? Tentativa de suicídio? Algo mais complexo?

Paralelamente, a cidade vive um momento político inédito com sua primeira grande eleição. Três partidos disputam o poder, e o resultado impacta diretamente o clima social. A investigação precisa ser concluída antes do dia da votação, o que cria uma tensão constante entre o caso principal e o contexto político.

Um dos recursos mais interessantes é a conversa constante com seus próprios atributos, ou seja, seus sentimentos e habilidades se manifestam como vozes internas que comentam, sugerem e, às vezes, provocam. Dependendo da situação, elas podem incentivar uma resposta diplomática ou sugerir algo completamente inadequado só para “ver no que dá”. E muitas vezes isso é hilário.

À medida que você conversa com moradores — anões, goblins, humanos e outras figuras do cenário — novas quests surgem. Algumas se conectam diretamente ao mistério da explosão, enquanto outras expandem o mundo e aprofundam o cenário político e social.

Como é de se esperar, é uma narrativa aberta, com múltiplos caminhos e finais possíveis, mas exige atenção. Infelizmente, é importante destacar que não há dublagem e não há localização em português. Isso torna Esoteric Ebb em um jogo extremamente dependente de texto, pesando para muitos.

Ambientação e Trilha Sonora

Visualmente, Esoteric Ebb adota um estilo mais cartunesco e colorido. Não há o peso melancólico de Disco Elysium. Aqui, o mundo é mais vibrante, quase leve. De forma literal, é um clima de “a magia e o fantástico estão no ar”.

A cidade é diversa, cheia de raças e pequenas tensões sociais. Essa mistura funciona bem porque o tom geral permite momentos genuinamente cômicos. Um exemplo claro acontece logo no início: ao investigar tudo compulsivamente, você pode vasculhar uma lata de lixo e encontrar um alimento descartado. Ao decidir pegar o item, seus próprios atributos entram em debate, questionando sua dignidade e sanidade. É um diálogo inesperado e, sinceramente, um dos primeiros momentos em que o jogo arranca uma gargalhada que dura minutos.

E o ponto positivo aqui é que esse humor não parece forçado. Ele surge da interação entre sistema e narrativa, te colocando em inúmeras situações inesperadas.

A trilha sonora acompanha esse equilíbrio entre investigação e leveza. Ela não é invasiva, mas ajuda a manter o ritmo. Ainda assim, a ausência de dublagem é sentida. Com tantos diálogos bem escritos, vozes poderiam elevar consideravelmente a imersão.

Gameplay

O gameplay de Esoteric Ebb é estruturado e dentro do esperado, com foco em exploração, diálogo e rolagens de dados.

Antes de começar, você cria seu personagem distribuindo atributos clássicos de RPG — resistência, força, carisma e outros — ou opta por uma configuração aleatória. Também é possível escolher traços de histórico que oferecem vantagens específicas em determinadas situações.

A maioria das ações importantes depende de testes com D20. E aqui o jogo abraça completamente a imprevisibilidade de mesa. Você pode conseguir um sucesso alto logo no início e desbloquear um equipamento poderoso de forma inesperada. Da mesma forma, pode falhar em algo simples mesmo precisando de um resultado baixo no dado (algo que acontece mais do que gostaria de admitir…..).

Essa imprevisibilidade molda a experiência. Ela pode abrir caminhos alternativos ou fechar portas que pareciam garantidas. E, logicamente, existem itens que você pode equipar em seu personagem para ajudá-lo em status específicos. Com isso, é possível montar builds para situações específicas e ter mais chances com o dado.

Explorar é essencial. Investigar cada canto pode gerar situações absurdas ou perigosas: tentar passar discretamente por um grifo adormecido, discutir com uma criatura que claramente não está interessada em diálogo ou até sofrer consequências inesperadas ao simplesmente tentar descer uma escada longa demais.

O sistema de “quase morte” é outro diferencial de Esoteric Ebb. Quando seu personagem está prestes a morrer, o jogo oferece até seis rolagens de D20. Três sucessos garantem que você sobreviva com 1 ponto de vida. Três falhas encerram a jornada. Esse sistema dá uma margem dramática interessante, menos abrupta do que simplesmente “game over”.

Por fim, as decisões moldam realmente a narrativa. Você pode subornar, confrontar, se omitir, fugir ou abraçar o caos. Em alguns momentos, suas próprias emoções internas influenciam suas ações — como quando um impulso mal calculado leva seu personagem a desafiar alguém claramente mais forte. E as consequências vêm sem piedade.

Esoteric Ebb exige envolvimento

Se há um ponto em Esoteric Ebb que pode afastar parte do público, é a complexidade de seu mundo.

Diferente de um cenário mais próximo da realidade, aqui você precisa aprender as regras daquele universo: suas raças, tensões, ideologias políticas e alianças. A eleição não é pano de fundo decorativo onde ela influencia diálogos e posicionamentos.

Entender o que cada partido representa exige atenção. É possível se manter apartidário para simplificar as coisas, mas isso também limita parte da experiência. Aos poucos, conforme você joga, as peças começam a fazer sentido. Ainda assim, há uma curva de adaptação.

Vale pontuar que isso não é um defeito estrutural, afinal, o mundo é bem construído. Mas Esoteric Ebb exige dedicação do jogador para se aprofundar nessa complexa teia de variáveis e complexidade do mundo. E, por óbvio, isso pode afastar alguns jogadores.

Conclusão

Esoteric Ebb é um RPG narrativo sólido, que claramente bebe da fonte de Disco Elysium, mas encontra identidade própria ao mergulhar de vez na fantasia inspirada em Dungeons & Dragons.

O humor funciona, as rolagens de dado trazem imprevisibilidade real e a liberdade de escolha é ampla. Conversar com seus próprios atributos continua sendo uma das mecânicas mais interessantes do gênero, gerando momentos cômicos e de caos.

Por outro lado, Esoteric Ebb pede leitura atenta, envolvimento com política interna e domínio do inglês. Não é uma experiência leve para quem quer apenas avançar rapidamente na história.

Para quem aprecia RPGs de mesa, decisões complexas e mundos densos, Esoteric Ebb é uma excelente pedida. Para quem busca algo mais direto ou cinematográfico, pode exigir mais dedicação do que o esperado.

Essa análise de Esoteric Ebb segue nossas diretrizes internas. Clique aqui e confira nosso processo de avaliação.

Um patro cheio para os fãs de RPG de mesa

Visual, ambientação e gráficos - 8.5
Jogabilidade - 9.5
Diversão - 9.5
Áudio e trilha-sonora - 8
Narrativa - 9.5

9

Fantástico

Esoteric Ebb é um RPG narrativo fortemente inspirado em Disco Elysium, mas com identidade própria ao abraçar a fantasia clássica e mecânicas baseadas em Dungeons & Dragons. A investigação central, combinada com um cenário político ativo e rolagens de D20 imprevisíveis, cria uma experiência rica em escolhas e consequências. O humor funciona bem, a liberdade é ampla e o sistema de “quase morte” adiciona tensão interessante. Por outro lado, é um jogo que exige dedicação para entender seu mundo e suas facções, além de depender fortemente do domínio do inglês, já que não há dublagem nem localização em português. Indicado para quem gosta de RPGs densos em texto e decisões — não para quem busca algo mais direto ou acessível.

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Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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