Após cerca de 18 anos sem um novo Castlevania 2D de rolagem lateral, a Konami se une à Evil Empire para trazer a franquia de volta às suas raízes com Castlevania: Belmont’s Curse. A espera foi longa, mas o gênero não ficou parado nesse período. Os Metroidvanias evoluíram, incorporaram novas ideias e passaram a explorar possibilidades que vão muito além da fórmula estabelecida décadas atrás. A questão, portanto, é saber se o retorno da franquia consegue respeitar seu legado e, ao mesmo tempo, acompanhar essa evolução.
A resposta é bastante positiva. A Evil Empire, que trabalhou em algumas DLC’s de Dead Cells e desenvolveu The Rogue Prince of Persia, demonstra compreender tanto a identidade de Castlevania quanto as expectativas atuais do gênero. O resultado é uma aventura que mantém elementos clássicos da série, mas aposta em combates mais ágeis, exploração complexa, desafios de plataforma e uma variedade considerável de habilidades e equipamentos.
Belmont’s Curse não é um jogo perfeito, e algumas decisões de direção artística e sonora podem dividir opiniões. Ainda assim, estamos diante de um retorno muito bem-sucedido, que demonstra como uma franquia adormecida pode evoluir sem perder aquilo que a tornou especial.
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Uma nova Belmont diante da maldição de Drácula
A história acompanha Rose Belmont, filha de Trevor Belmont e Sypha, personagens conhecidos de Castlevania III e da série animada da Netflix. Mais uma vez, forças malignas ameaçam o mundo, agora com acontecimentos concentrados em Paris, na França. Treinada pelo pai, Rose precisa investigar o que está acontecendo, provar seu valor como integrante do clã Belmont e enfrentar a maldição deixada por Drácula, que também está relacionada à morte de sua mãe.
A premissa é relativamente simples, como costuma acontecer em aventuras desse tipo, mas a maneira como a narrativa se desenvolve é um dos pontos positivos do jogo. Conforme Rose enfrenta os chefes, os personagens derrotados passam a participar da história por meio de diálogos e novas perspectivas sobre os acontecimentos. Eles não se tornam necessariamente aliados, mas ajudam a revelar como cada um chegou àquela situação, seja por corrupção, desespero ou pela busca deliberada de poder para atender aos próprios interesses.



Essa variedade de motivações torna o conflito mais interessante do que uma simples luta entre o bem e o mal. Os personagens têm suas próprias agendas, e Castlevania: Belmont’s Curse apresenta essas informações gradualmente, sem precisar interromper constantemente a aventura para explicar tudo de uma vez.
A dublagem também merece destaque. Com atuações de alta qualidade, os diálogos ganham força e ajudam a dar personalidade ao elenco. Em alguns momentos, a interpretação dos personagens remete à caracterização vista na animação da Netflix, o que funciona muito bem.
Outro detalhe interessante é a utilização das cartas de tarô por Rose. Além de fazerem parte da construção da protagonista, elas estão diretamente ligadas às habilidades que podem ser desbloqueadas durante a aventura. Essa conexão entre narrativa e gameplay ajuda a integrar os diferentes sistemas do jogo, em vez de fazer com que as mecânicas pareçam elementos desconectados da história.

Uma identidade gótica com cores mais vibrantes
Visualmente, Belmont’s Curse mantém a estética gótica esperada de Castlevania, com demônios, criaturas sobrenaturais, construções antigas e cenários marcados pela presença das forças do mal. A aventura começa em diferentes regiões de Paris, passando por catacumbas, cemitérios e áreas da cidade tomadas pelas chamas, antes de avançar para o tradicional castelo do Conde Drácula e seus diversos ambientes.
A direção artística é consistente e demonstra familiaridade com o universo da franquia. Boa parte dos inimigos também será reconhecida pelos fãs, incluindo esqueletos, zumbis, armaduras animadas e outras criaturas clássicas. Essa familiaridade ajuda a estabelecer uma conexão imediata com os jogos anteriores, sem impedir que o título desenvolva sua própria identidade visual.
A principal diferença está na paleta de cores. Em vez de apostar exclusivamente em ambientes escuros e numa apresentação mais sombria, o jogo utiliza cores mais saturadas e vibrantes. O resultado é um mundo visualmente mais vivo, que contrasta com a temática macabra da aventura.


Particularmente, não considero isso um problema. Os cenários de Castlevania: Belmont’s Curse continuam coerentes com a proposta e são bem construídos, mas é uma mudança perceptível para quem associa Castlevania a uma estética mais escura e opressora. Trata-se muito mais de uma escolha artística do que de uma falha propriamente dita.
A trilha sonora segue uma direção semelhante. Ela mantém a atmosfera gótica, com uso de órgãos e composições que acompanham a exploração e os momentos de tensão. Há também espaço para músicas clássicas da franquia, incluindo uma nova versão de Bloody Tears, que funciona muito bem.
Minha ressalva é que a trilha aposta menos na energia do rock e nas composições mais pesadas que marcaram alguns jogos anteriores. Em vez daquela agressividade musical, temos algo mais contido, que favorece a exploração e a contemplação dos ambientes. Novamente, é uma questão de preferência, não de qualidade. A trilha é boa, mas segue uma direção diferente daquela que alguns fãs podem esperar.

Castlevania: Belmont’s Curse evoluiu junto com o gênero
Para entender o que Belmont’s Curse representa, vale lembrar como o gênero evoluiu. Castlevania ajudou a estabelecer as bases do Metroidvania, especialmente com Symphony of the Night, ao combinar exploração, progressão do personagem, equipamentos e elementos de RPG com a estrutura de exploração associada a Metroid.
Desde então, o gênero passou por muitas transformações. Os desafios de plataforma ficaram mais elaborados, os combates ganharam novas camadas de complexidade e diferentes estilos passaram a compartilhar ideias. Jogos como Hollow Knight e sua continuação, Hollow Knight: Silksong, demonstram como essa fórmula pode ser levada a níveis elevados de exigência e precisão.
Por isso, não faria sentido esperar que Belmont’s Curse simplesmente reproduzisse um jogo de quase duas décadas atrás. A Evil Empire aproveita a experiência adquirida em projetos recentes para entregar uma aventura mais ágil, com movimentação elaborada, combates exigentes e uma exploração que recompensa a curiosidade. Apesar dessas influências, vale deixar claro que estamos diante de um Metroidvania tradicional, não de um roguelike.


Rose começa a aventura com uma espada, mas encontra diferentes categorias de armas ao longo da jornada, incluindo lanças, espadas pesadas, manoplas e o icônico chicote dos Belmonts. Cada uma oferece uma abordagem própria. A espada funciona como uma opção equilibrada, as manoplas favorecem ataques rápidos e próximos, enquanto o chicote permite atingir inimigos a uma distância maior, com dano que varia conforme o alcance do golpe.
As armas também possuem particularidades que ampliam suas possibilidades. A lança, por exemplo, permite realizar ataques à distância, enquanto as manoplas podem lançar adversários para o alto. Além disso, existem diferentes níveis de raridade, incentivando a busca por equipamentos melhores e oferecendo motivos para explorar áreas opcionais.
A progressão não se limita ao arsenal. Derrotar inimigos concede experiência, que fortalece Rose, enquanto a exploração pode render melhorias de ataque e defesa, novas armas e partes de coração que aumentam os recursos da personagem. Há ainda diversos equipamentos passivos, dos quais podemos utilizar três simultaneamente, permitindo montar combinações adequadas ao estilo de jogo de cada pessoa.
Um dos primeiros exemplos é um amuleto ligado à mãe de Rose, que utilizei até o fim da aventura. Ele concede periodicamente um escudo capaz de impedir um golpe e paralisar os inimigos que atingem a personagem. Outros equipamentos oferecem bônus de dano em determinadas condições, reduzem o dano recebido de armadilhas ou melhoram a recuperação de vida. São modificadores que parecem simples isoladamente, mas que, combinados com armas e habilidades, ampliam as possibilidades de personalização.
As cartas de tarô completam esse conjunto. Desbloqueadas ao derrotar chefes, elas concedem habilidades especiais e podem ser aprimoradas em três níveis por meio de objetivos específicos, como eliminar determinados tipos de inimigos ou derrotar vários adversários com uma única utilização. Isso incentiva o uso frequente dos poderes e acrescenta uma camada adicional de progressão.
O resultado é um sistema de combate versátil, no qual a escolha de armas, equipamentos e habilidades influencia diretamente a maneira de enfrentar cada situação.

Exploração e combates que exigem precisão
Se a variedade de equipamentos já oferece bastante liberdade, é na exploração que Belmont’s Curse demonstra com mais clareza como o gênero evoluiu. O jogo apresenta caminhos opcionais, áreas secretas e desafios de plataforma que exigem domínio da movimentação. Alguns deles são bastante difíceis, especialmente quando envolvem espinhos, plataformas que desabam e inimigos posicionados para dificultar cada salto.
O chicote (habilidade e não arma) tem papel fundamental nesse processo. Ele permite que Rose se projete em direção a determinados pontos, alcance plataformas e utilize inimigos como apoio para avançar. Essa mecânica amplia as possibilidades de movimentação horizontal e vertical e transforma algumas áreas em verdadeiros testes de precisão.
Há desafios obrigatórios e outros opcionais, estes últimos frequentemente recompensando o jogador com equipamentos ou melhorias. A exploração, portanto, não se resume a percorrer corredores até encontrar a próxima sala: observar o cenário, descobrir rotas alternativas e dominar as ferramentas disponíveis são partes importantes da experiência.
Os pontos de salvamento e os sistemas de viagem rápida ajudam a tornar essa estrutura mais administrável. Mesmo quando um desafio exige várias tentativas, é possível retornar às áreas anteriores, buscar melhorias e tentar novamente. Em certos momentos, porém, a dificuldade das plataformas pode ser bastante punitiva, exigindo paciência para superar sequências que precisam ser executadas quase perfeitamente.



Os combates seguem uma filosofia semelhante. A movimentação é mais rápida do que nos Castlevania clássicos, e os inimigos podem atacar de diferentes direções, mas isso não significa que basta pressionar os botões indiscriminadamente. É necessário observar os padrões de ataque, identificar os momentos seguros e escolher quando atacar ou recuar.
A recuperação de vida, por exemplo, exige que o jogador encontre espaço para utilizar os itens, em vez de simplesmente apertar um botão no meio da confusão e continuar lutando. Esse detalhe reforça a importância do posicionamento e do planejamento, especialmente nos confrontos mais movimentados.
Os chefes são um dos grandes destaques. As batalhas exigem atenção aos sinais visuais, leitura dos padrões e movimentação constante, tanto na horizontal quanto na vertical. Conforme a luta avança, é necessário reconhecer mudanças nos ataques e adaptar a estratégia. São confrontos difíceis, mas recompensadores, nos quais aprender o comportamento do adversário é tão importante quanto possuir bons equipamentos.
Tentar vencer na força bruta costuma resultar em morte rápida. É preciso respeitar o ritmo de cada confronto, ter paciência e aproveitar as oportunidades de ataque. Para quem gosta de combates que exigem aprendizado e execução precisa, o jogo oferece bastante conteúdo.


Dificuldade ajustável sem abrir mão do desafio
A dificuldade elevada de Castlevania: Belmont’s Curse merece uma consideração à parte, principalmente porque a evolução de Rose não resolve todos os problemas por meio da progressão tradicional. Embora seja possível melhorar atributos e encontrar equipamentos mais fortes, algumas limitações permanecem. A quantidade de poções disponíveis, por exemplo, não aumenta naturalmente da maneira que alguns jogadores poderiam esperar.
Isso poderia tornar a experiência excessivamente frustrante para quem não tem tanta familiaridade com o gênero. Felizmente, a Evil Empire encontrou uma solução interessante que, ao invés de oferecer apenas opções predefinidas de dificuldade, o jogo permite ajustar diferentes parâmetros individualmente.
É possível aumentar a quantidade de poções, modificar o dano causado e recebido, reduzir o impacto das armadilhas, alterar a quantidade de experiência recebida e até ativar um modo de invulnerabilidade. Cada jogador pode, assim, modificar apenas os aspectos que considera necessários, sem precisar transformar toda a experiência em algo mais fácil.
Essa flexibilidade faz diferença principalmente na progressão. Em determinados momentos, pode ser necessário repetir trechos para acumular experiência e fortalecer Rose. Quem não quiser gastar tanto tempo nesse processo pode aumentar o ganho de XP e acelerar a evolução sem necessariamente alterar o restante do desafio.
Também existe uma opção particularmente útil para as batalhas contra chefes. Em vez de retornar ao ponto de salvamento e percorrer novamente o caminho até o confronto, é possível reiniciar diretamente na entrada da arena. Isso reduz o tempo perdido entre as tentativas e permite concentrar os esforços em aprender os padrões do adversário.
Gostei bastante dessa abordagem adotada em Castlevania: Belmont’s Curse porque ela não trata a dificuldade como uma escolha entre jogar da maneira tradicional ou simplesmente tornar tudo fácil. Quem deseja uma experiência mais exigente pode elevar os parâmetros, enquanto quem precisa de um pouco mais de margem para errar pode ajustar somente aquilo que está atrapalhando seu progresso.
A possibilidade de personalização também ajuda a contornar momentos em que o jogo exige uma quantidade excessiva de repetição para avançar. Em vez de obrigar todos a seguir o mesmo ritmo, Belmont’s Curse oferece ferramentas para que cada pessoa encontre um equilíbrio adequado entre desafio, aprendizado e progressão.

Conclusão ainda em desenvolvimento
Ficou bem evidente que a experiência que tive em Castlevania: Belmont’s Curse, foi bem positiva ao focar em seus desafios, estilo artístico, movimentação e em sua história.
Contudo, eu omiti propositalmente sua parte técnica que ela só pode ser apresentada como incompleta. A build que foi analisada por nós, simplesmente está muito problemática. Dentre os problemas, tivemos congelamento do jogo no menu, diversos crashes ao longo da experiência, queda de frame e visuais que aparentam estar “quebrados”. Para efeito comparativo, o visual da demo de Castlevania: Belmont’s Curse está superior a esta versão que foi analisada por nós.
Vale pontuar que jogamos a versão 1.0 de Castlevania: Belmont’s Curse do Switch 1 no Switch 2 (não existe uma versão nativa de Switch 2). Poucas horas antes do embargo desta análise, o prometido patch day 1 simplesmente não foi disponibilizado.
Com isso posto, até poder efetivamente analisar a versão com o patch de melhorias, que, na teoria, será a versão disponibilizada a todos, minha recomendação é que não compre Castlevania: Belmont’s Curse. Isso, pelo menos, na versão de Switch.
O potencial de Castlevania: Belmont’s Curse é evidente e muito do que vi está muito bem executado. Contudo, o estado técnico do jogo, neste momento, é fraco ao ponto de não poder recomendar ele.

