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Análise: Gears of War: E-Day

Gears of War volta ao dia que mudou tudo

Leonardo Coimbra ·

Depois de tantos anos acompanhando a história da família Fenix e os acontecimentos posteriores da franquia, Gears of War: E-Day decide olhar para trás. Em vez de continuar a narrativa apresentada pelos jogos mais recentes, o novo capítulo retorna ao ponto em que tudo começou: o E-Day, o dia em que os Locusts surgiram para a população de Sera e deram início a uma guerra que mudaria completamente aquele mundo.

A campanha se passa 14 anos antes do primeiro Gears of War e acompanha um jovem Marcus Fenix ao lado de Dominic “Dom” Santiago, quando os dois ainda estavam longe da imagem que a franquia construiria posteriormente. Mais do que apresentar o início da ameaça Locust, o jogo aproveita esse período para mostrar um mundo que ainda funcionava normalmente. E é justamente aí que está um de seus aspectos mais interessantes.

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Grande parte da campanha se concentra em Kalona, uma cidade que, inicialmente, ainda está de pé, funcionando e vivendo sua rotina. As pessoas têm planos, famílias, trabalhos e momentos de lazer. Existe inclusive uma cerimônia relacionada à guerra contra a URA, conflito que já fazia parte da história da franquia, mas que ganha aqui um pouco mais de contexto. É nesse cenário que Marcus e Dom ainda carregam as consequências da perda de Carlos Santiago, irmão de Dom e melhor amigo de Marcus.

O contraste funciona muito bem. À medida que as horas passam, Kalona deixa de ser uma cidade normal para se transformar em um cenário de guerra. O jogo mostra essa transformação de maneira gradual, acompanhando também a percepção das pessoas sobre uma ameaça que inicialmente ninguém compreende. Há uma sensação interessante de acompanhar aquele momento em que a população ainda está tentando descobrir o que está acontecendo enquanto tudo ao seu redor começa a ruir.

Para acompanhar Marcus e Dom, surge também o Esquadrão Bravo, formado praticamente em meio ao caos. Em vez do conhecido Esquadrão Delta, temos um grupo reunido por necessidade, composto ainda por Mags Carter e Lucas Reyes. Mags é uma veterana do exército da CGO que estava trabalhando nas refinarias de Emulsão de Kalona antes do ataque, e é uma das personagens que mais se destaca na campanha. Ela carrega experiência, personalidade e um histórico que ajuda a dar mais peso ao grupo.

Lucas segue o caminho oposto. Jovem cadete e oficial de comunicações, ele nunca havia enfrentado uma guerra de verdade e entra naquele cenário completamente despreparado. Sua evolução ao longo da campanha é interessante, embora o personagem não tenha o mesmo impacto que Mags ou a dupla Marcus e Dom.

A relação entre Marcus e Dom, por sua vez, funciona exatamente como se esperaria. É uma das partes mais naturais da campanha e ajuda a reforçar o lado mais humano da história. O jogo também faz questão de apresentar o E-Day pela perspectiva de sobrevivência. Ou seja, ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, ninguém está preparado e os humanos simplesmente estão sendo devastados.

Essa é uma das maiores virtudes da narrativa. O problema é que a estrutura utilizada para contar essa história acaba limitando seu impacto.

Uma cidade em ruínas, uma história que poderia ir além

A transformação de Kalona talvez seja o melhor recurso narrativo de E-Day. É interessante começar a campanha em uma cidade funcional e, algumas horas depois, voltar aos mesmos lugares e perceber tudo o que aconteceu. Ruas, prédios e ambientes que antes faziam parte de uma rotina normal passam a carregar as marcas da invasão. A destruição não funciona apenas como cenário, ela também serve para mostrar a dimensão do desastre.

O problema é que a campanha demora pouco para atingir seu principal objetivo dramático. O jogo consegue transmitir muito bem o caos do início da invasão, mas, depois que essa sensação é estabelecida, a história passa a depender demais de uma estrutura relativamente repetitiva.

O Esquadrão Bravo acaba funcionando muitas vezes como uma espécie de equipe de limpeza: chega a determinado ponto, ajuda sobreviventes, enfrenta Locusts e parte para o próximo problema. Isso combina com a proposta de sobrevivência, mas acaba pesando contra o ritmo da campanha. Mesmo quando o cenário continua evoluindo e a guerra fica cada vez maior, existe a sensação de que a narrativa poderia estar avançando mais.

Há revelações e acontecimentos importantes, mas eles não atingem o impacto que poderiam. E-Day conta uma boa história e faz sentido como prequela, porém permanece muito mais próximo do esperado do que de algo capaz de elevar a narrativa da franquia para um novo patamar.

É uma campanha que funciona melhor quando mostra a transformação daquele mundo e das pessoas do que quando tenta criar grandes reviravoltas.

Um espetáculo visual em meio ao caos

Visualmente, Gears of War: E-Day é um dos trabalhos mais impressionantes da franquia. A utilização da Unreal Engine 5 fica evidente principalmente na iluminação, na riqueza dos cenários e no nível de detalhe dos personagens.

As cenas mais próximas dos protagonistas apresentam modelos extremamente detalhados, enquanto armaduras, armas e equipamentos possuem uma quantidade de detalhes impressionante. O design dos Locusts também mantém a identidade conhecida da série e se encaixa muito bem nesse novo momento da história.

Mas o aspecto visual que mais chama atenção está novamente em Kalona. Ver a cidade antes do ataque e acompanhar sua destruição ao longo da campanha cria alguns dos momentos visualmente mais marcantes do jogo. O cenário vai ficando mais caótico, com fogo, explosões, destroços, inimigos e NPCs correndo por todos os lados. Existe uma evolução visual que acompanha diretamente a narrativa.

E, claro, Gears continua entregando aquilo que seus fãs esperam nas finalizações. A Lancer com motosserra continua sendo uma das grandes marcas da franquia, e E-Day entende muito bem o peso visual e sonoro dessas execuções.

Na parte sonora, o resultado também é muito sólido. As armas têm sons distintos, os efeitos dos confrontos ajudam a criar a sensação de intensidade e a trilha sonora acompanha bem os momentos de ação. A dublagem em português também está muito bem produzida, mantendo um padrão de qualidade que combina com o restante da apresentação.

Gears continua sendo Gears, só que mais ágil

Talvez a forma mais simples de explicar o gameplay de E-Day seja dizendo que é Gears of War.

A estrutura clássica continua intacta. Temos uma pistola e duas armas principais, com uma boa variedade de armamentos disponíveis ao longo da campanha. Lancers, escopetas, rifles, snipers e outras armas dividem espaço com equipamentos dos próprios Locusts, que também trazem algumas variações interessantes. Também existem granadas e suas muitas variações incluíndo torretas automáticas e um lançador de espinhos.

Os inimigos também mantêm os tipos clássicos, mas E-Day aproveita bem a oportunidade para introduzir novas ameaças. Existem inimigos especializados em diferentes formas de ataque, criaturas que avançam diretamente contra o jogador e outros tipos capazes de adicionar novas camadas aos confrontos. A inteligência artificial também funciona bem, com inimigos constantemente tentando flanquear, avançar e explorar posições.

O resultado é um combate que continua muito baseado em cobertura, mas que ganhou uma dose importante de mobilidade.

Essa é provavelmente a melhor evolução de E-Day em relação ao Gears mais tradicional. O personagem continua pesado, preservando aquela sensação de controlar praticamente um tanque, mas agora existe muito mais liberdade para se movimentar. O botão dedicado ao pulo permite alcançar novas áreas, passar por baixo de veículos, subir em carros e caminhões e explorar melhor a verticalidade dos cenários.

O próprio sistema de cobertura foi ampliado. Marcus consegue se deslocar melhor entre pontos, utilizar diferentes níveis do cenário e atravessar determinadas áreas de maneiras que seriam impossíveis nos jogos mais antigos. Alguns elementos destrutíveis ainda fazem com que o jogador precise se adaptar durante o confronto.

Isso não transforma Gears em um jogo de ação completamente diferente, e esse é justamente o mérito. E-Day moderniza a mobilidade sem abandonar a identidade do cover shooter.

A campanha também flerta mais com o terror. Existem muitos momentos em ambientes escuros e fechados, passando por quartos, cavernas, esgotos, delegacias e ruas destruídas. Em algumas situações, a atmosfera lembra mais um jogo de horror do que o Gears tradicional, algo que combina bastante com a ideia de acompanhar os primeiros momentos da invasão.

Customização e exploração: boas ideias pouco aproveitadas

A outra grande novidade está no sistema de customização. Ao longo da campanha, é possível encontrar melhorias para armas, equipamentos e habilidades passivas, além de ampliar os espaços disponíveis para equipar essas melhorias.

Na prática, porém, esse sistema não consegue gerar a sensação de progressão que poderia.

As melhorias podem ser encontradas em missões secundárias e em caixas espalhadas pelo cenário. O problema é que essas caixas não criam realmente uma sensação de descoberta. O próprio jogo indica que existe uma delas por perto e ainda permite utilizar uma função que praticamente aponta sua localização. Quando finalmente encontramos o item, a recompensa também não transmite aquela sensação de ter conquistado alguma coisa importante.

É uma pena, porque a ideia em si é interessante. Poder alterar estabilidade, dano, munição, efeitos ou habilidades passivas poderia criar uma camada muito mais significativa de progressão. Só que, como os recursos aparecem com relativa facilidade e o jogo praticamente conduz o jogador até eles, a exploração acaba parecendo mais uma tarefa complementar do que uma recompensa.

Isso também afeta Kalona. A cidade possui uma estrutura parcialmente aberta, com missões secundárias, caminhos alternativos, verticalidade e áreas para explorar. Existe mais liberdade do que na estrutura linear clássica de Gears, mas a motivação para explorar tudo isso não é tão forte quanto poderia ser.

No fim, o jogador encontra melhorias, ganha alguns recursos adicionais e continua avançando. Falta aquele sentimento de “vale a pena procurar porque posso encontrar algo realmente especial”.

O maior problema está no desempenho

Se existe um ponto que realmente pesa negativamente na experiência de E-Day no PC, é a otimização.

O jogo foi testado com uma RTX 4070 Super, Ryzen 7 5800X e 32 GB de RAM DDR4, configuração capaz de executar a campanha em 2K com qualidade alta ou ultra. Em qualidade alta, a experiência ficou na faixa de 70 a 75 FPS, enquanto no ultra foi possível ficar entre aproximadamente 60 e 65 FPS.

Contudo, o problema aparece conforme a campanha avança. Quanto mais destruída fica Kalona e outros cenários, maior é a quantidade de inimigos, efeitos, fogo, explosões, movimentação de NPCs e elementos simultâneos na tela. E é justamente nesse momento que a performance começa a cair de maneira perceptível.

Trechos que anteriormente rodavam próximos dos 70 FPS passam a registrar quedas para a casa dos 50 ou até 45 FPS, principalmente a partir do terceiro ato, quando a intensidade das batalhas aumenta consideravelmente.

Existe suporte a geração de frames, mas isso não resolve o problema de uma base de desempenho instável. Antes de pensar em aumentar a taxa de quadros por meio desse recurso, o jogo precisa manter uma taxa nativa consistente.

Outro ponto que chama atenção é a compilação de shaders. Em meu PC, esse processo levou cerca de 10 minutos ou até um pouco mais. É uma preparação bastante pesada, especialmente considerando que, mesmo depois dela, a estabilidade não se mantém durante toda a campanha.

A Unreal Engine 5 entrega resultados visuais impressionantes, mas E-Day também acaba esbarrando em alguns dos problemas que já ficaram conhecidos em outros jogos utilizando a tecnologia. No caso de um título que visualmente trabalha tanto com destruição e grandes quantidades de elementos simultâneos, isso se torna ainda mais evidente.

Por isso, a otimização é mais do que um detalhe técnico, interfererindo diretamente na experiência justamente quando o jogo chega aos seus momentos mais intensos.

Um Gears muito bem resolvido, mas que poderia ter ido além

Gears of War: E-Day entende muito bem o que a franquia precisava preservar. A campanha recupera o espírito mais clássico da série, apresenta uma atmosfera mais sombria, traz combate pesado, mantém o excelente sistema de cobertura e ainda consegue melhorar a mobilidade sem descaracterizar a experiência. Visualmente, é um trabalho impressionante, e a transformação de Kalona é uma das melhores ideias do jogo tanto do ponto de vista narrativo quanto visual.

A dupla Marcus e Dom continua sendo um dos pontos centrais, enquanto Mags surge como uma excelente adição ao elenco. A ideia de acompanhar personagens completamente perdidos diante de uma ameaça que ninguém entende também funciona muito bem para transmitir o sentimento de sobrevivência.

Por outro lado, algumas das novidades parecem menos maduras. O sistema de melhorias é uma boa ideia, mas as caixas são fáceis demais de encontrar e não oferecem uma recompensa proporcional à exploração. A estrutura semiaberta segue o mesmo caminho onde existe mais liberdade, mas pouca motivação para explorar profundamente.

A narrativa também poderia ter entregado mais. Ela começa muito bem, estabelece o cenário, mostra a destruição desse mundo e transmite o desespero daqueles primeiros momentos, mas passa boa parte da campanha em uma estrutura de missão que acaba se repetindo. Em determinados trechos, fica a impressão de que o jogo poderia avançar mais rapidamente ou aprofundar determinados acontecimentos.

E há, por fim, o desempenho no PC, que atualmente é o principal ponto técnico a ser observado. Quanto mais impressionante fica o espetáculo visual, mais evidente se torna a queda de performance.

Ainda assim, é difícil negar que E-Day é um ótimo Gears of War. Ele não reinventa a franquia e também não precisa fazer isso. Seu maior mérito está em pegar uma fórmula que já funciona, recuperar a identidade mais clássica da série e acrescentar mobilidade, exploração e novas possibilidades sem transformar Gears em outra coisa.

Para quem é fã da franquia, é uma experiência que conversa diretamente com tudo aquilo que tornou os jogos anteriores tão marcantes. E, para quem já possui acesso ao Game Pass, especialmente por se tratar de uma campanha que mantém essa essência clássica, existe um motivo bastante direto para conhecer o jogo.

E-Day poderia ter ido além em sua narrativa, poderia ter trabalhado melhor sua progressão e ainda precisa de ajustes importantes de otimização, mas, no essencial, ele entrega exatamente aquilo que se espera de um novo Gears: tiroteios pesados, violência, cobertura, motosserra e uma guerra que transforma completamente o mundo ao seu redor.

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80 Nota

Gears of War: E-Day

Ótimo

E-Day mostra que ainda existe muito espaço para Gears of War continuar evoluindo sem abandonar sua identidade. O combate continua excelente, a mobilidade foi bem trabalhada e o visual impressiona, enquanto a ambientação consegue transmitir muito bem o caos do primeiro dia da invasão. Apesar disso, a história poderia ter mais impacto, a exploração não entrega recompensas interessantes e o desempenho no PC cai justamente quando a campanha fica mais intensa.

Desenvolvedor The Coalition
Publicadora Xbox Game Studios
Lançamento 06/10/2026
Plataformas Xbox Series X|S, PC (Microsoft Windows), PlayStation 5
Plataforma jogada PC
Dublado PT-BR Sim
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora
Onde comprar

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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