Star Wars Galactic Racer chega como uma nova experiência de corrida ambientada no universo criado pela franquia, resgatando o conceito das corridas de pods que ganhou destaque há mais de duas décadas e transformando a ideia em um jogo completamente original. Mais do que simplesmente revisitar uma das modalidades mais características de Star Wars, o título aposta em uma experiência bastante completa, com campanha, progressão, diferentes tipos de veículos, personalização, habilidades, apostas e uma quantidade considerável de conteúdo.
O mais curioso é que este também é o primeiro jogo da Fuse Games, estúdio britânico fundado em 2023 por veteranos da Criterion Games, conhecida por trabalhos como Burnout e Need for Speed. Ou seja, existe experiência no gênero por trás da equipe, mas ainda assim chama atenção a maneira como um estúdio estreante conseguiu transformar uma proposta tão específica em algo que vai muito além de uma simples homenagem às corridas de pods.
E, depois de jogar, a resposta é bastante positiva. Galactic Racer me surpreendeu principalmente pela profundidade de sua campanha, pela qualidade das pistas e pela quantidade de sistemas que vão sendo apresentados ao jogador ao longo da experiência.
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Uma campanha muito mais elaborada do que o esperado
O modo história é, provavelmente, a maior surpresa de Galactic Racer. A expectativa inicial era encontrar uma campanha relativamente simples, servindo apenas como justificativa para apresentar as corridas, mas o jogo constrói uma narrativa bem mais elaborada, com personagens recorrentes, rivalidades, intrigas e diferentes acontecimentos que vão se desenvolvendo conforme avançamos.
Assumimos o controle de Shade, um humano que trabalha fazendo entregas de equipamentos pelo universo. Uma dessas atividades o coloca em contato com Darius Pax, organizador da Liga Galactica, que decide apadrinhar o protagonista e colocá-lo na competição. A história acontece após a queda do Império, enquanto a Nova República ainda está sendo construída, permitindo que a Liga surja nesse período de maior liberdade.
O principal objetivo de Shade passa a ser enfrentar Kestar Bool, atual campeão da competição. A rivalidade, porém, não existe apenas por causa das corridas. Bool tem uma ligação com o passado do protagonista e foi responsável por algo que o prejudicou profundamente. O problema é que o atual campeão não se lembra de Shade, criando uma motivação pessoal que vai sendo trabalhada durante a campanha.
Um dos pontos que mais gostei é que os adversários não são apenas nomes que aparecem na classificação. Diversos pilotos acompanham a campanha, conversam com Shade entre as corridas e desenvolvem suas próprias relações com o protagonista. Alguns apoiam Kestar, outros se opõem a ele, e essas relações acabam tendo consequências dentro da própria progressão.




A campanha também é dividida em atos e vai adicionando novas possibilidades conforme avançamos. Um dos momentos mais nostálgicos acontece quando Sebulba, o clássico corredor de A Ameaça Fantasma, aparece como uma espécie de primeiro grande desafio. Ele funciona não apenas como adversário, mas também como uma ponte com o passado das corridas de pods, contando histórias e trazendo uma participação que conversa diretamente com a memória dos fãs.
Essa combinação entre uma história original e referências ao universo conhecido funciona muito bem. O jogo não depende apenas da nostalgia para construir sua campanha e, ao mesmo tempo, sabe utilizá-la quando encontra uma oportunidade interessante.
A dublagem também ajuda bastante. Os personagens têm uma boa presença durante a campanha e as interações entre as corridas fazem com que os pilotos pareçam parte daquele universo, em vez de simplesmente serem adversários colocados na pista.

Um Star Wars que está vivo ao redor das pistas
A ambientação segue a mesma lógica. Galactic Racer não se limita a colocar uma corrida em um cenário que parece pertencer a Star Wars. Há uma preocupação em fazer com que os mundos tenham vida antes, durante e depois das corridas.
São seis planetas, cada um com características próprias, incluindo ambientes de gelo, lava, veneno e regiões extremamente quentes. As pistas aproveitam essas características não apenas visualmente, mas também como parte da própria corrida.
O resultado é um conjunto de circuitos bastante variado. Existem trajetos curtos, médios e longos, incluindo pistas tão extensas que uma única volta já é suficiente para construir uma corrida inteira. Há também diferentes caminhos, atalhos e áreas mais abertas que eventualmente dão lugar a trechos estreitos, criando disputas muito próximas entre os pilotos.
Esse desenho ajuda bastante a transmitir a sensação de velocidade. Em determinados momentos, vários corredores conseguem disputar espaço lado a lado, empurrando uns aos outros contra paredes ou utilizando habilidades para tentar tirar um adversário do caminho.
Os próprios ambientes também interferem na pilotagem. A lava pode elevar rapidamente a temperatura do veículo, enquanto áreas com ácido causam outro tipo de problema. No planeta congelado, por exemplo, o frio ajuda a controlar o superaquecimento e permite utilizar o turbo especial por mais tempo, mas o excesso de congelamento compromete a aderência. Para equilibrar isso, existem áreas específicas de calor que permitem recuperar a temperatura do veículo.



São detalhes que fazem os planetas deixarem de ser apenas cenários bonitos e passarem a participar efetivamente das corridas.
Visualmente, essa atenção também aparece nos elementos que cercam os circuitos. Droides circulam pelos ambientes, criaturas passam pelas pistas, naves sobrevoam determinadas regiões e há toda uma movimentação antes da largada, com personagens realizando os últimos ajustes nos veículos e elementos do cenário sendo retirados do caminho.
E algo que adiciona ainda mais imersão no meio dessa proposta é que ao longo de diversos cenários, você irá passar no entorno ou até dentro de cruzadores espaciais imperiais, restos de naves e mais. Isso posiciona o jogador exatamente após a queda do Império.
É um cuidado que ajuda a criar a sensação de que existe um mundo funcionando ao redor da corrida.
A trilha sonora segue a mesma proposta. A música orquestrada e intensa combina muito bem com a velocidade, enquanto a dublagem e os efeitos sonoros dos veículos completam a experiência. Cada tipo de veículo possui características sonoras próprias, e durante as corridas os próprios personagens também fazem comentários e reagem ao que está acontecendo.
Somados, esses elementos fazem Galactic Racer ser um jogo bastante imersivo.

Três veículos, muitas possibilidades de configuração
A variedade não termina nas pistas. Existem três categorias de veículos, cada uma com características próprias: Speeder Bike, Speeder Terrestre e Skim Speeder.
O Speeder Terrestre é o mais equilibrado, oferecendo uma combinação razoável entre velocidade, estabilidade e capacidade de manobra. A Speeder Bike é mais ágil e permite mudanças de direção mais rápidas, mas também é mais frágil e fica mais vulnerável a colisões e ataques. Já o Skim Speeder, inspirado diretamente no conceito clássico dos Pod Racers, busca um meio-termo entre essas características.
Eu acabei preferindo o Skim Speeder justamente por esse equilíbrio, mas o mais importante é que os veículos não parecem existir apenas para oferecer uma mudança visual. A escolha realmente interfere na maneira de pilotar. E isso ganha ainda mais importância por causa do sistema de evolução.
Galactic Racer possui mais de 300 peças para desbloquear, permitindo modificar diferentes aspectos dos veículos. É possível trabalhar velocidade, resfriamento, resistência, desempenho no vácuo, turbo, habilidades e diversos outros atributos.
Além da evolução tradicional, existem diferentes habilidades que podem ser incorporadas ao veículo. O jogador pode utilizar escudos, piloto automático, minas, ataques de área e outras ferramentas ofensivas e defensivas. Há ainda combinações entre essas habilidades que ampliam suas possibilidades.



O Ramjet, por exemplo, funciona como um turbo especial que aumenta bastante o desempenho, mas também gera calor. Ao mesmo tempo, ele pode ser utilizado de maneira ofensiva para atingir adversários e jogá-los para longe.
Esse sistema faz com que a pilotagem não seja apenas uma questão de acelerar e fazer curvas. É necessário administrar temperatura, habilidades, bateria, posicionamento e oportunidades de ataque durante a corrida.
O sistema de sinergias amplia ainda mais essa camada. Podemos desenvolver relacionamentos com diferentes personagens e utilizar até três deles para obter benefícios específicos. Hibi, a mecânica e amiga de Shade, é uma das primeiras personagens a entrar nesse sistema, mas outros pilotos podem ser incorporados conforme suas relações com o protagonista evoluem.
Isso também se conecta às apostas que aparecem durante a campanha. Podemos desafiar determinados pilotos em disputas paralelas, melhorar nossa relação com eles e obter novas vantagens para utilizar posteriormente.
O resultado é uma progressão que consegue manter o jogador interessado mesmo depois de várias horas. Sempre existe alguma peça, habilidade, sinergia ou melhoria que pode ser desbloqueada.

Corridas que não se resumem a chegar em primeiro
Outro ponto positivo é a variedade de objetivos. Além das corridas tradicionais, existem desafios de tempo, provas de eliminação, desafios envolvendo a utilização prolongada do Ramjet e outras variações que alteram a maneira como precisamos encarar a pista.
Isso combina bem com a estrutura da campanha, que aumenta gradualmente a dificuldade até chegar aos confrontos mais importantes. Quando somos derrotados em determinados desafios, precisamos retornar ao início do ato, mas isso não significa simplesmente repetir tudo do zero. O veículo continua evoluindo e podemos utilizar os recursos conquistados para chegar mais preparados à próxima tentativa.
Essa estrutura faz a campanha se prolongar de maneira natural. Algo que poderia ser relativamente curto se fosse concluído de uma vez acaba oferecendo mais tempo de jogo justamente porque o jogador precisa aprender as pistas, desenvolver o veículo e experimentar diferentes configurações.
A inteligência artificial também merece destaque. No nível normal, os adversários são agressivos, competentes e não parecem estar ali apenas para preencher a pista. As disputas podem ficar bastante físicas, com pilotos tentando empurrar uns aos outros e utilizando as próprias habilidades para ganhar vantagem.
Isso contribui muito para a sensação de estar participando de uma corrida de pods de verdade. É preciso ser rápido, mas também prestar atenção ao comportamento dos adversários e saber quando atacar ou se defender.

Outros modos ampliam ainda mais o pacote
Fora da campanha, o jogo oferece os modos Arcade e Cenário.
O modo Cenário funciona como uma espécie de campeonato compacto focado em determinados personagens. Nesse caso, perdemos parte da liberdade da campanha, já que o veículo, as habilidades e a configuração são previamente definidos. A proposta passa a ser justamente aprender a lidar com aquele conjunto específico e superar o desafio apresentado.
Já o Arcade trabalha de maneira mais próxima de um time trial, com medalhas de bronze, prata e ouro. É necessário alcançar pelo menos o bronze para liberar novos desafios, enquanto os resultados também rendem recursos.
Aqui aparece uma das poucas ressalvas que tenho com o jogo. Alcançar o ouro é extremamente difícil. Mais do que o usual em jogos similares. Para conseguir o melhor tempo desses desafios, será necessário fazer uma volta perfeita que irá desafiar imensamente os jogadores.
A dificuldade pode ser interessante para quem busca um desafio de alto nível, mas existe uma diferença grande entre simplesmente completar uma prova e conseguir o melhor resultado. Isso pode vir a ser um ponto de incômodo para alguns jogadores mais casuais.


Velocidade, destruição e um toque de Burnout
Se existe uma característica que resume bem a experiência de pilotar em Galactic Racer, é a combinação entre alta velocidade e corridas bastante agressivas.
É possível perceber um pouco do DNA da Criterion Games, especialmente de Burnout, na maneira como os veículos se chocam, disputam espaço e podem ser destruídos durante a corrida. Também é possível encontrar elementos que lembram outros jogos de corrida focados em ambientes mais extremos, mas Galactic Racer consegue construir sua própria identidade a partir disso.
Um dos recursos mais interessantes é uma espécie de “killcam”. Quando conseguimos atingir um adversário de maneira suficientemente forte para destruí-lo, a câmera abandona temporariamente nosso veículo e acompanha o adversário durante a explosão.
A ideia funciona para destacar o impacto da colisão e, principalmente, impedir que o jogador bata em alguma coisa enquanto a câmera está focada no adversário. Durante alguns segundos, o veículo continua sendo controlado automaticamente até a câmera retornar.
É uma solução interessante e que combina com a proposta, embora não seja perfeita. Em algumas situações, o retorno da câmera pode colocar o veículo em uma posição complicada, inclusive no meio de uma curva, fazendo com que acabemos batendo justamente por causa da transição.
Felizmente, o jogo permite desativar essa câmera, algo especialmente importante no multiplayer e para quem prefere manter a visão da pista durante toda a corrida.

Uma estreia muito acima das expectativas
Star Wars Galactic Racer acabou sendo uma das experiências mais surpreendentes que tive com um jogo de corrida baseado na franquia. A expectativa poderia facilmente ser a de um título focado apenas na nostalgia das corridas de pods, mas o que encontrei foi um jogo com uma campanha muito mais elaborada do que esperava e uma quantidade enorme de sistemas trabalhando juntos.
A história consegue criar sua própria identidade ao mesmo tempo em que utiliza elementos nostálgicos, como a participação de Sebulba. Os personagens possuem relações entre si, existem apostas, sinergias, patrocinadores, melhorias, eventos e diferentes formas de desenvolver o veículo.
As pistas também são um dos grandes destaques. Os seis planetas possuem identidade própria, os ambientes interferem na corrida e os circuitos oferecem diferentes caminhos, atalhos e situações de disputa. Tudo isso é acompanhado por uma boa apresentação visual, uma trilha sonora que combina perfeitamente com Star Wars e uma dublagem que dá personalidade aos personagens.
E, principalmente, existe conteúdo suficiente para justificar dezenas de horas para quem quiser explorar tudo. São mais de 300 peças, 20 sinergias, diferentes estilos, veículos e uma série de modos e desafios que vão além da campanha.
A Fuse Games pode estar fazendo sua estreia como estúdio, mas a experiência dos veteranos da Criterion aparece claramente no resultado final. Star Wars Galactic Racer consegue transformar uma ideia bastante específica da franquia em um jogo de corrida completo, profundo e divertido, que funciona tanto para quem gosta de alta velocidade e disputas destrutivas quanto para os fãs de Star Wars.

