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Análise: Aviãozinho do Tráfico Pré 4

Com humor ácido e mecânicas de boomer shooter, a nova obra de Joeveno prova que o "trash" consciente é patrimônio nacional.

Bernardo Cortez ·

Eu sempre tive curiosidade de jogar Aviãozinho do Tráfico, mas não porque esperava encontrar algum FPS revolucionário ou uma produção particularmente elaborada. Como morador de Niterói, meu interesse estava principalmente em descobrir até onde iam as referências ao Rio de Janeiro, a São Gonçalo e às particularidades de uma região que conheço tão bem. Foi justamente essa curiosidade que me levou a escolher o jogo para analisar, e posso dizer que não me decepcionei.

Depois de jogar AVIÃOZINHO DO TRÁFICO PRÉ 4: SOBRARAM DEMÔNIOS DO PORTAL PRO INFERNO NA FAVELA QUE ABRI E AGORA TENHO QUE SALVAR OS MAMADAS DO RONALDO (um título que, por motivos de praticidade, será bastante abreviado daqui para frente), a melhor definição que encontrei foi a de uma verdadeira pérola carioca.

Isso porque suas referências não se limitam àquelas imagens do Brasil que todo mundo já conhece. Algumas são tão específicas que conversam diretamente com quem mora, já esteve ou conhece bem lugares como São Gonçalo. Em vários momentos, reconhecer uma dessas piadas foi suficiente para me fazer rir e pensar que alguém realmente teve a ideia de colocar aquilo em um videogame. Por mais simples que seja sua proposta, é nesse reconhecimento que Aviãozinho encontra boa parte de seu charme.

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Sobraram demônios, e agora precisamos salvar os Mamadas

A história continua os acontecimentos de Aviãozinho do Tráfico 3, depois da confusão envolvendo a tentativa de ressuscitar Mit Aia e a abertura de um portal para o inferno. Embora aquele problema tenha sido resolvido, ainda sobraram demônios espalhados pelo Brasil, e o descanso de Da Silva acaba interrompido por uma nova ameaça: Ronaldo McDaleste, que sequestra os Mamadas e obriga o protagonista a voltar à ação.

A partir daí, temos uma jornada completamente absurda, na qual a narrativa funciona principalmente como justificativa para apresentar novas situações, personagens e inimigos. Não existe aqui a intenção de construir uma trama dramática ou particularmente complexa, a história serve para ligar as fases e garantir que sempre exista algum motivo, por mais ridículo que seja, para continuar atirando.

E isso combina perfeitamente com o restante da experiência. Em um jogo com esse nome e essa premissa, tentar levar os acontecimentos muito a sério provavelmente seria a maneira errada de aproveitar a aventura. O melhor é aceitar a maluquice e descobrir o que mais apareceu na cabeça de seu criador.

Quake brasileiro, com muita bala e pouca complicação

Por baixo das piadas, Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é um FPS bastante tradicional, com uma inspiração evidente em Quake. O combate é rápido e direto, incentivando você a permanecer em movimento enquanto enfrenta os inimigos e procura espaço para escapar dos ataques. A proposta não envolve aprender dezenas de sistemas ou passar muito tempo organizando equipamentos. O importante é pegar uma arma, avançar e resolver os problemas na base do tiro.

O pulo duplo e o dash complementam essa movimentação, permitindo atravessar os ambientes com mais liberdade e alcançar plataformas ou áreas escondidas. Além de ajudarem durante os confrontos, essas habilidades também dão espaço para explorar a verticalidade dos mapas e procurar segredos pelo caminho.

Apesar disso, achei os mapas relativamente básicos, o que não considero necessariamente um problema dentro da proposta. Eles oferecem o espaço necessário para os tiroteios, conduzem a jornada por diferentes lugares e servem de palco para as referências. Não é um jogo no qual o grande atrativo está em desvendar uma estrutura complexa de fases. Boa parte da diversão vem de avançar, meter bala e descobrir qual será a próxima coisa absurda esperando mais adiante.

Essa simplicidade funciona porque existe uma boa variedade de armas e inimigos para acompanhar o percurso. Mesmo quando a estrutura das fases é familiar, novos elementos continuam aparecendo e renovando a curiosidade. Muitas vezes, eu estava tão interessado em descobrir a próxima piada quanto em enfrentar o próximo combate.

Uma mente perturbada criou essas armas

O arsenal talvez seja uma das melhores demonstrações da criatividade de Aviãozinho do Tráfico. A impressão é que alguém olhou para uma coleção de objetos do cotidiano brasileiro e decidiu que absolutamente todos poderiam ser transformados em armas, independentemente de fazerem algum sentido. O resultado inclui berimbau, Guaraná Dolly, chimarrão utilizado como lança-chamas e até feijoada incorporada ao armamento.

São ideias que parecem ter saído de uma mente perturbada, e digo isso no melhor sentido possível. Existe algo muito engraçado em encontrar um equipamento novo e perceber a lógica completamente torta que levou à sua criação. Prefiro não enumerar tudo justamente porque descobrir essas invenções durante a campanha faz parte da graça.

Felizmente, não se trata apenas de uma ou duas boas piadas espalhadas pelo jogo. A quantidade de armas é excelente, assim como a variedade de inimigos e personagens que aparecem ao longo da jornada. Essa combinação ajuda a sustentar os confrontos e garante que a experiência não dependa exclusivamente do impacto inicial da premissa. Quando você acha que já entendeu o nível da brincadeira, surge alguma outra coisa para surpreendê-lo.

Brasil, Rio de Janeiro e referências que chegam até São Gonçalo

Embora o gameplay seja divertido, o aspecto que mais me conquistou foi a maneira como o jogo trabalha suas referências brasileiras. A campanha passa por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, ampliando a viagem para além de uma única região, mas foram as referências mais próximas de casa que tornaram minha experiência especialmente engraçada.

Não é simplesmente uma questão de colocar um ponto turístico conhecido no cenário e esperar que isso seja suficiente para representar o Rio. A graça está nos detalhes e nas particularidades que fazem sentido para quem conhece a região. Algumas piadas conversam com o público brasileiro de maneira geral, enquanto outras parecem feitas especificamente para quem mora por aqui ou já passou bastante tempo em São Gonçalo.

Como alguém de Niterói, foi impossível não me divertir com esse lado do jogo. Há um prazer muito particular em reconhecer algo que dificilmente apareceria em outra produção, ainda mais quando a referência está inserida em uma situação completamente sem sentido. Em determinados momentos, Aviãozinho parece uma enorme piada interna entre moradores do Rio de Janeiro que, por algum motivo, acabou se transformando em um FPS comercial.

É principalmente por isso que acho que todo carioca deveria experimentar o jogo. Mesmo sem encontrar uma proposta especialmente sofisticada, existe uma identidade regional muito forte aqui, e foi justamente ela que me fez querer conhecer a série.

Ser trash faz parte da proposta

Visualmente, Aviãozinho do Tráfico Pré 4 abraça o caos sem qualquer vergonha. Modelos simples, texturas de baixa definição, recortes e uma quantidade enorme de elementos dividindo a tela formam uma apresentação que está muito mais interessada em participar da piada do que em impressionar pela qualidade técnica. A estética remete àqueles mods antigos e jogos modificados que circulavam em CDs de computador, algo que combina com o tipo de humor adotado.

Em alguns momentos, a quantidade de inimigos, projéteis e informações visuais pode atrapalhar a leitura do combate, então o exagero não existe sem consequências. Ainda assim, boa parte dessa bagunça faz sentido dentro da experiência, porque a proposta é justamente ser trash.

Isso não transforma qualquer limitação em qualidade, mas ajuda a entender por que o visual funciona apesar de sua aparência. Uma apresentação excessivamente limpa e organizada provavelmente perderia parte do charme, já que o absurdo depende também dessa combinação de elementos que aparentemente não deveriam estar juntos. Os gráficos podem ser caóticos, mas raramente deixam de combinar com o jogo que está acontecendo por trás deles.

A trilha sonora é um dos grandes destaques

Se os gráficos cumprem seu papel dentro da maluquice, a trilha sonora foi um dos aspectos de que mais gostei. A mistura de liquid drum and bass, funk, músicas conhecidas do Brasil e outras referências cria uma identidade musical que acompanha perfeitamente o restante da experiência. Não é apenas um fundo sonoro para o tiroteio, muitas vezes a própria música participa da piada e ajuda a tornar a fase mais engraçada.

Houve momentos em que eu comecei uma fase, a música entrou e imediatamente comecei a rir. A graça estava em reconhecer a referência e perceber como ela havia sido incorporada àquela mistura, que consegue ser absurda sem deixar de funcionar musicalmente. É o tipo de surpresa que reforça a personalidade do jogo e mostra que a criatividade não ficou restrita às armas ou aos personagens.

Para mim, a trilha acaba sendo um ponto alto justamente por unir essas duas coisas. Ela acompanha bem o ritmo da ação e, ao mesmo tempo, oferece mais uma camada de humor. Em um jogo que aposta tanto na descoberta de referências, conseguir fazer isso também pela música torna a experiência ainda mais divertida.

Conclusão: Vale a pena jogar Aviãozinho do Tráfico Pré 4?

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é um jogo simples, e acho importante entrar nele com essa expectativa. Não estamos diante de um FPS especialmente elaborado ou de uma experiência que pretende reinventar o gênero. O que ele oferece é uma sequência de tiroteios rápidos, armas criativas, inimigos variados e referências brasileiras, amarrada por uma proposta que não tem qualquer compromisso com a normalidade.

Pelo preço, considero que vale a pena para se divertir sem grandes compromissos. Os mapas são básicos e os visuais podem ficar caóticos, mas a variedade de elementos e a trilha sonora fantástica ajudam a manter a experiência interessante. Mais do que procurar alguma grande inovação, a graça está em descobrir o próximo absurdo e aproveitar o caminho até ele.

Também fiquei com a impressão de que essa série ainda vai continuar por bastante tempo. Não me surpreenderia se, daqui a alguns anos, estivéssemos analisando Aviãozinho do Tráfico 17, acompanhado de outra frase gigantesca que mal caberia no título da matéria. Pelo que vi aqui, não parece faltar disposição para transformar novas ideias malucas em jogos, e espero que essa criatividade continue rendendo boas risadas.

No fim, o que mais ficou comigo não foi uma mecânica específica, mas a satisfação de jogar algo tão próximo das referências da região onde moro. Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é tosco, trash e completamente sem sentido, mas também é engraçado, criativo e muito divertido. Por isso, mantenho minha conclusão: para mim, esse jogo é patrimônio cultural do Rio de Janeiro, e todo carioca deveria jogá-lo pelo menos uma vez.

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75 Nota

Brazilian Drug Dealer Before 4: Demons From the Portal to Hell I Opened Are Still in the Favela and Now I Have to Save Mamadas From Ronaldo

Bom

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é um boomer shooter simples, caótico e muito divertido, que se destaca pela criatividade das armas, pela trilha sonora excelente e pela avalanche de referências brasileiras, especialmente cariocas e gonçalenses. Mesmo sem ser uma experiência muito elaborada, sua identidade trash e regional transforma o jogo em uma verdadeira pérola do Rio de Janeiro que todo carioca deveria conhecer.

Desenvolvedor Joeveno
Publicadora Joeveno
Lançamento 16/09/2026
Plataformas PC (Microsoft Windows)
Plataforma jogada PC
Dublado PT-BR Sim
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora
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Bernardo Cortez

Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.

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