Análise: Valor Mortis

A Dança Mortal do Aço e da Pólvora: Por Que Valor Mortis Reorganiza as Regras do Soulslike

Bruno Degering ·

Há algo de muito gratificante na maneira como a One More Level trabalha o peso do combate e o ritmo da ação nos videogames. Depois de conquistar os jogadores com a velocidade cirúrgica da franquia Ghostrunner, o estúdio polonês resolveu encarar um desafio bem mais complexo: aplicar essa mesma busca por precisão ao terreno exigente dos Soulslikes. Ao transportar a estrutura do gênero para a primeira pessoa e ambientar a jornada em uma versão alternativa e sombria das Guerras Napoleônicas, o resultado vai além de um simples experimento. É uma redefinição direta, intuitiva e extremamente divertida de como o combate de curta distância pode funcionar.

O maior mérito de Valor Mortis é eliminar a burocracia que frequentemente trava a progressão nos RPGs de ação tradicionais. O jogo dispensa as árvores de talentos confusas, os inventários cheios de itens repetitivos e a necessidade de passar horas estudando atributos para criar uma build viável. A proposta aqui é clara: o foco total está na resposta imediata dos controles, no tempo exato dos bloqueios, na leitura dos movimentos inimigos e na sensação tátil de fatiar fileiras de soldados reanimados no meio de uma Europa devastada.

Narrativa e Ambientação: O Horror nas Trincheiras Napoleônicas

A história começa na pele de William Dowsett, um oficial britânico que desperta sob uma pilha de corpos em decomposição em um campo de batalha esquecido. Sem memórias claras sobre seu passado, sua própria morte ou o motivo de estar ali, Dowsett se vê lançado no centro de um continente destruído. Nesse universo alternativo, Napoleão Bonaparte não apenas venceu a Batalha de Waterloo, mas acabou liberando uma praga sobrenatural catastrófica ao tentar dominar forças paranormais para consolidar seu império.

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A construção do mundo é opressiva e envolvente. A direção de arte faz um trabalho excelente ao transformar o cenário de guerra em algo marcante na tela, levando o jogador por campos de batalha cobertos de lama e cadáveres, vilarejos reduzidos a escombros e florestas tomadas por uma névoa espessa. Esse clima de desespero funciona muito bem, impulsionado por um trabalho de dublagem competente — com destaque para o ator Vincent Cassel na voz de Napoleão —, que dá peso à narrativa sem nunca interromper o ritmo da exploração.

Diferente da tradição do gênero de contar a história de forma excessivamente enigmática, Valor Mortis prefere um caminho mais direto. A trama principal avança de forma clara através de diálogos e encontros com figuras históricas, enquanto os detalhes mais profundos sobre a praga e o colapso dos exércitos ficam guardados em diários e documentos espalhados pelos cenários para quem gosta de investigar cada canto.

Estrutura e Design de Níveis: A Interconexão no Estilo Metroidvania

Na hora de desenhar os mapas, a equipe não se limitou a criar arenas isoladas. O design dos cenários é denso e interconectado, lembrando a estrutura clássica dos Soulslikes e flertando abertamente com a filosofia dos Metroidvanias. As regiões funcionam como labirintos cheios de verticalidade, rotas alternativas e atalhos posicionados no momento certo para recompensar quem explora com atenção.

As lanternas com ampulhetas cumprem o papel dos pontos de descanso. Nelas, você utiliza os Catalisadores acumulados nos combates (a moeda do jogo, que é perdida caso você morra e não consiga recuperar seu corpo) para evoluir os atributos fundamentais e aprimorar os itens de cura. A navegação se destaca quando você percebe como portas trancadas, pontes rebaixadas e elevadores conectam áreas distantes, criando um mapa coeso que evita a necessidade de viagens rápidas constantes.

A exploração fica ainda mais interessante com a integração de habilidades de movimentação herdadas do histórico do estúdio. Conforme progride na campanha, Dowsett libera capacidades como correr pelas paredes, atravessar superfícies tóxicas sem sofrer dano e usar um gancho para alcançar pontos elevados. Voltar a regiões anteriores se torna recompensador quando você nota que um abismo intransponível agora pode ser cruzado com o gancho, abrindo caminho para baús valiosos, confrontos opcionais com inimigos de elite e missões secundárias.

Mecânicas e Sistemas de Progressão: A Arte do RPG Descomplicado

Um dos pontos mais revigorantes do jogo é a sua estrutura de RPG limpa e objetiva. Em uma época em que muitos títulos exigem o gerenciamento de dezenas de barras, porcentagens e estatísticas complexas, a One More Level tomou o caminho oposto para garantir que nada atrapalhe a experiência de jogo.

A evolução do personagem gira em torno de duas frentes simples: o aumento de atributos básicos nas lanternas e a alocação de habilidades passivas. A árvore de habilidades foca em melhorias práticas que afetam diretamente o ritmo dos confrontos, como o aumento da barra de postura, o menor consumo de estamina ao esquivar e a liberação de novos espaços para equipar Âmbares.

  • O Sistema de Âmbares: Funcionando como amuletos modificadores, os Âmbares trazem um toque inteligente de personalização. Eles podem ser encontrados ao explorar caminhos secretos, cumprir missões secundárias ou derrotar chefes opcionais.
  • Efeitos Práticos no Combate: Em vez de oferecer bônus numéricos pequenos, os Âmbares entregam vantagens perceptíveis no calor da ação. Existem opções que recuperam a vida gradualmente, outras que oferecem a chance de economizar munição ao atirar e modificadores raros que transformam um bloqueio perfeito em um contra-ataque devastador.
  • Evolução sem Burocracia: Como não existem requisitos rígidos de atributos para usar os equipamentos encontrados na campanha, você nunca fica travado por ter alocado pontos no lugar errado. É possível testar novas ferramentas a qualquer momento sem a necessidade de redefinir o personagem.

Essa abordagem garante que o progresso do jogador seja sentido não apenas pelos números na tela, mas pelo aprimoramento natural dos seus próprios reflexos. A sensação de crescimento é real e constante, criando um ciclo de gameplay viciante onde a curva de aprendizado recompensa quem presta atenção nos padrões de ataque.

Gameplay e Combate: O Encontro do Aço, da Pólvora e das Transmutações

Se a ambientação e a progressão constroem uma boa base, é no momento do combate que Valor Mortis mostra sua verdadeira força. Adaptar a leitura de postura e a cadência do gênero para a primeira pessoa era um risco alto, mas o estúdio entregou um sistema de esgrima preciso, ágil e muito satisfatório.

O arsenal disponível é enxuto e bem trabalhado, garantindo que cada ferramenta tenha uma utilidade clara. Com a mão principal, o jogador utiliza armas brancas como o Sabre — voltado para absorção de dano e bloqueios firmes — ou a Rapieira, ideal para quem prefere aparar ataques no momento exato e desferir estocadas rápidas. Na mão secundária, é possível alternar instantaneamente através de um menu radial que desacelera o tempo, escolhendo entre armas de fogo da época e as Transmutações, que funcionam como habilidades mágicas.

  • Aparar e Quebrar Postura: Os duelos funcionam como uma dança tática. Bloquear o golpe inimigo no milissegundo correto desgasta a barra de postura do oponente até quebrá-la. Quando isso acontece, abre-se uma janela para um ataque crítico em primeira pessoa, resultando em finalizações brutais e na eliminação imediata de inimigos comuns.
  • Uso de Pólvora e Magia: As armas da mão secundária ajudam a manter o controle do campo de batalha. Um tiro de garrucha no meio de uma sequência de golpes interrompe o ataque adversário, enquanto as Transmutações permitem acender poças de óleo no chão, ativar armadilhas elétricas ou criar escudos temporários para absorver danos pesados.
  • Parry de Projetéteis: Uma das dinâmicas mais interessantes envolve a habilidade de aparar tiros de mosquete no ar com a lâmina da espada. Ao dominar o tempo correto, o projetil é absorvido para o seu estoque, permitindo devolver o disparo em seguida diretamente no ponto fraco do oponente.
  • Mobilidade nas Arenas: O jogo incentiva o uso constante de esquivas rápidas, saltos e do gancho de navegação para puxar o protagonista em direção a arqueiros distantes ou fugir da investida de criaturas maiores, permitindo ajustar o posicionamento em segundos.

Mesmo quando o jogador se vê cercado por múltiplos oponentes em espaços reduzidos, a resposta rápida dos controles e a agilidade das esquivas garantem que o resultado do confronto dependa inteiramente da habilidade de quem está jogando. A sensação de acertar um bloqueio perfeito e desferir um golpe de misericórdia mantém a adrenalina alta durante toda a campanha.

Visual, Gráficos e Direção Artística

Visualmente, Valor Mortis aproveita muito bem os recursos da Unreal Engine 5 para criar uma atmosfera escura e detalhada, combinando a estética militar do século XIX com elementos de horror biológico.

A iluminação é um dos pontos altos do trabalho gráfico. A luz das fogueiras cortando a escuridão, a névoa acumulada nas trincheiras e os feixes de luz passando pelas janelas de prédios destruídos trazem uma boa profundidade aos cenários. O nível de detalhes também chama a atenção: o solo enlameado mostra marcas profundas de rodas de canhão, os uniformes apresentam desgaste real e as lâminas refletem as luzes do ambiente com clareza.

O design dos inimigos evolui de forma interessante ao longo do jogo. A jornada começa com formas reanimadas de soldados civis e militares com marcas de combate, mas logo avança para mutações mais grotescas. Encontrar criaturas formadas pela fusão de vários corpos dentro de armaduras pesadas ou monstros ágeis que se movem pelas paredes adiciona uma camada constante de tensão à exploração.

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Performance e Análise Técnica

Para um jogo em que o tempo de reação e a precisão do bloqueio definem a sobrevivência, a estabilidade técnica é essencial. A One More Level entregou um trabalho de otimização sólido, garantindo uma taxa de quadros constante que acompanha o ritmo rápido dos combates.

A experiência nos consoles de última geração é consistente, mantendo os comandos ágeis durante toda a jogatina:

  • Fluidez e Resposta de Comandos: O jogo busca manter os 60 frames por segundo, garantindo uma leitura limpa dos ataques inimigos e um tempo de resposta rápido nos botões. Mesmo em cenários com fumaça, explosões e vários oponentes na tela, a performance se mantém estável.
  • Qualidade Visual e Recursos no PS5 Pro: Na versão dedicada ao PS5 Pro, o título apresenta um ganho claro em nitidez e qualidade de imagem com o uso do PSSR. A imagem permanece definida em telas 4K, eliminando serrilhados no horizonte. O uso de Ray Tracing aprimora os reflexos em poças de sangue, o brilho do aço e a qualidade das sombras em áreas abertas.
  • Trabalho de Áudio e Resposta Tátil: O som posicional em 3D ajuda a identificar a direção dos passos e o som de armas sendo engatilhadas fora do campo de visão. Nos controles com suporte a resposta tátil, a pressão dos gatilhos altera conforme a arma utilizada, e o impacto do choque entre as espadas transmite uma vibração firme para as mãos.

Conclusão

Valor Mortis é uma demonstração de competência da One More Level. Ao traduzir a exigência dos Soulslikes para a primeira pessoa, o estúdio entregou uma experiência de ação rápida, desafiadora e muito gratificante.

Ao deixar de lado as complicações desnecessárias de sistemas de RPG engessados e focar na qualidade do combate, na movimentação e no aprendizado prático do jogador, o título se consolida como uma excelente opção para quem busca uma jornada direta ao ponto, com ótimo ritmo e bastante personalidade.

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88 Nota

Valor Mortis

Excelente

Valor Mortis adapta a fórmula dos Soulslikes para a primeira pessoa com combate ágil, preciso e excelente sensação de impacto. Ao trocar a complexidade excessiva de builds pelo foco na habilidade do jogador e no domínio das armas, a One More Level entrega um dos jogos de ação mais dinâmicos e envolventes do ano.

Desenvolvedor One More Level
Publicadora One More Level, Lyrical Games
Lançamento 13/10/2026
Plataformas Xbox Series X|S, PC (Microsoft Windows), PlayStation 5
Plataforma jogada PS5
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora

Bruno Degering

Gamer há tanto tempo que usa consoles como referência cronológica para lembranças de sua vida. Amante de Mega Man, Resident Evil e Warcraft. Se gaba por ter zerado Battletoads aos 9 anos mas abandonou Bloodborne com 26.

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