Análise: Neverness to Everness

Mergulhamos em Hethereau para descobrir se o novo projeto da Hotta Studio entrega a revolução prometida no gênero sandbox sobrenatural.

Bernardo Cortez ·

O lançamento oficial de Neverness to Everness (NTE) hoje, 29 de abril de 2026, marca um momento de transição interessante para a Hotta Studio, que tenta se distanciar das controvérsias de seus projetos passados para entregar um sandbox sobrenatural de peso. Hethereau, a cidade que serve de palco para a trama, é uma metrópole vibrante que tenta equilibrar a rotina urbana com anomalias bizarras, criando uma atmosfera que remete diretamente a uma mistura de Genshin Impact com o dinamismo de um Grand Theft Auto em versão anime. Mergulhei nas primeiras horas do jogo para entender se essa ambição se sustenta ou se desmorona sob o peso de suas próprias ideias. Confira abaixo a nossa análise completa do jogo para saber mais detalhes.

Um Sandbox de Anomalias

A jornada começa com o clichê clássico do protagonista amnésico, que aqui pode ser homem ou mulher e, felizmente, rompe com a tradição de personagens mudos ao possuir voz e uma personalidade realmente cativante. Somos recrutados pelo Bureau de Controle de Anomalias após o surgimento do Hypervortex em New Helios, um evento catastrófico que quase engole a cidade e revela nossa sensibilidade especial para detectar essas distorções sobrenaturais. Nossa base de operações é a Eibon, uma loja de antiguidades charmosa que serve como fachada para uma equipe de caçadores de anomalias que operam sem licença oficial, focando em resolver casos muitas vezes motivados pela simples necessidade de sobreviver e pagar o aluguel na metrópole.

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O cenário urbano de Hethereau é, sem dúvida, o ponto mais forte do título, oferecendo uma cidade densa e condensada onde você não apenas viaja entre missões, mas efetivamente existe nela, funcionando como um ecossistema vivo que lembra uma versão estilizada e vibrante de um GTA paranormal. A transição entre o humor leve das interações com a excêntrica e adorável Mint e os momentos de horror durante a investigação de casos sobrenaturais cria um contraste que mantém o jogador constantemente em alerta. O jogo não tem medo de apresentar anomalias com visuais que remetem a seres bíblicos e cenas que realmente provocam arrepios.

Combate e Movimentação

Diferente de concorrentes que apostam pesadamente em sistemas de parry, Neverness to Everness brilha ao oferecer um combate frenético focado na mobilidade extrema e no uso estratégico do dash para o posicionamento defensivo e ofensivo. A fundação do sistema de ação em tempo real se baseia no que o jogo chama de Esper Management, sua versão de um sistema elemental que dita o ritmo das batalhas e exige inteligência na composição da equipe. A troca entre personagens ocorre de forma orgânica, permitindo criar sinergias para preencher medidores de energia e desencadear ataques coordenados que são visualmente muito bonitos e proporcionam uma sensação de recompensa imediata através de efeitos e animações explosivas. Esse foco na rotação constante e na construção de momentum é essencial para enfrentar os picos de dificuldade do jogo, especialmente em desafios avançados.

Entretanto, há uma crítica válida sobre a falta de variedade nos ataques básicos, já que a maioria esmagadora do elenco inicial é focada em combate corpo a corpo, o que pode diminuir a diversidade estratégica em sessões prolongadas. Mesmo que alguns personagens possuam habilidades de longo alcance, a experiência central ainda exige que você esteja em contato direto com o inimigo na maior parte do tempo, limitando um pouco o controle de espaço. Ainda assim, a resposta rápida dos comandos e a natureza chamativa das finalizações ajudam a compensar essa simplicidade inicial. O resultado é uma experiência que se sustenta bem.

O Peso da Narrativa

Se a ação em Hethereau é rápida e eletrizante, a narrativa nem sempre consegue acompanhar essa velocidade. Neverness to Everness sofre com diálogos excessivamente longos e uma apresentação que, embora estilosa e vibrante, pode se tornar exaustiva para quem busca um ritmo mais dinâmico e direto. Para os puristas de lore, a densidade das conversas oferece um mergulho nos mistérios do Bureau, mas para muitos, a sensação é de estar diante de uma narrativa arrastada, que não mantém a atenção a longo prazo. Essa abordagem acaba gerando um efeito montanha-russa, onde um início instigante é frequentemente seguido por trechos muito lentos que testam a paciência do jogador.

Fora isso, a progressão é constantemente interrompida por travas de nível, que agem como muros intransponíveis para quem deseja apenas maratonar a campanha principal. Quando essas barreiras surgem, o jogo empurra o usuário para longe da trama e o força a se envolver com o grind e as atividades secundárias da cidade para ganhar a experiência necessária. É frustrante perceber que, apesar de toda a sua modernidade visual e tecnológica, o título ainda se apoia fortemente em mecânicas de missões que parecem pertencer a uma era passada dos RPGs. As famosas missões de “vai lá e pega”, ou a exigência de conversar com personagens específicos apenas para coletar um item básico ou realizar uma entrega trivial, são extremamente repetitivas. Esse design de missão constrata muito com o restante do jogo, parecendo um retrocesso em um título que tenta ser tão revolucionário.

City Tycoon e Simulação de Vida

Onde NTE realmente se diferencia e brilha intensamente é no seu sistema de simulação de vida, centralizado no menu City Tycoon. Diferente de outros gachas onde o mundo é apenas um cenário estático para o combate, Hethereau é um espaço funcional onde você pode construir raízes e efetivamente viver. A imersão começa na garagem. Você pode comprar carros inspirados em modelos reais, com modificações estéticas, e utilizá-los não apenas para lazer, mas para trabalhar como taxista, por exemplo, transportando pedestres para ganhar dinheiro.

Para quem prefere uma rotina mais contemplativa, o jogo oferece um sistema de transporte público detalhado com ônibus e trens que permitem aprender as rotas da cidade enquanto observa a paisagem. O lado empreendedor também é explorado através do gerenciamento de um café. Você deve definir o cardápio com diferentes misturas de bebidas e escalar seus personagens para trabalhar, gerando uma renda passiva essencial enquanto você está fora combatendo anomalias. A personalização se estende ao seu próprio apartamento, onde é possível decorar ambientes com móveis obtidos até mesmo em encontros de combate ou como espólios de anomalias. Esse espaço serve como hub social onde você pode convidar companheiros para passar o tempo, aumentando seu nível de vínculo através de interações simples. Além disso, a cidade oferece distrações variadas, como apostas no cassino ou cinema.

Por fim, o sistema de “Procurado” adiciona uma camada extra de diversão e consequências. Atacar NPCs ou usar poderes em público atrai a atenção imediata da polícia, que fará de tudo para te deter. Caso seja capturado, você é levado para uma prisão totalmente funcional que possui seu próprio cronograma diário, comerciantes e até dois métodos distintos de fuga. Dentro do presídio, você pode se dedicar a um mini-game de simulador de lavagem a jato como uma punição produtiva que, curiosamente, recompensa o jogador com itens úteis e até roupas exclusivas para o protagonista, transformando o que seria uma penalidade em mais uma vertente divertida de progressão.

Unreal Engine 5 e o Desafio da Otimização no PC

Tecnicamente, NTE é uma faca de dois gumes que demonstra tanto o potencial quanto as limitações das tecnologias atuais. O uso da Unreal Engine 5 proporciona gráficos excelentes e uma iluminação fantástica, com ambientes bastante detalhados. No entanto, a engine parece lutar contra a estrutura de mundo aberto do jogo, uma combinação que frequentemente resulta em gargalos de performance.
Em nossos testes na versão de PC, enfrentamos stutters iniciais severos causados pela compilação de shaders. Mesmo com um processo de compilação ocorrendo logo na abertura, os travamentos são constantes e irritantes nos primeiros momentos de jogabilidade.

O sistema leva cerca de 20 minutos para estabilizar, tempo necessário para que os shaders básicos sejam carregados e a navegação por Hethereau pare de sofrer interrupções bruscas. Embora a trilha sonora seja excelente e ajude a mascarar as falhas técnicas ao envolver o jogador em sua vibração urbana, os problemas de desempenho são impossíveis de ignorar. Fica claro que a otimização para computadores ainda precisa de muito trabalho da Hotta Studio para atingir a fluidez esperada de um título de alto orçamento. Sem esses ajustes, a ambição de NTE continuará sendo freada por bugs e inconsistências que afastam o jogador da experiência fluida que o combate frenético tenta proporcionar.

Gacha e Progressão: Uma Revolução Justa

No quesito monetização, Neverness to Everness toma decisões que podem revolucionar o mercado de gachas e, sinceramente, aliviar muitos traumas acumulados pela comunidade ao longo dos anos. O destaque absoluto e motivo de comemoração é a ausência total do sistema de 50/50 nos banners limitados. Isso significa que, ao atingir a “piedade” (pity), o jogador tem a garantia absoluta de obter o personagem pelo qual está investindo, sem o risco de perder metade de seus recursos para um item aleatório do banner padrão. O sistema segue uma estrutura familiar de 70 pulls para o soft pity e 90 para o hard pity, mas a remoção da incerteza do 50/50 torna a experiência muito mais respeitosa com o tempo e o dinheiro do usuário.

Além disso, após as primeiras 50 jogadas no banner padrão, o jogo permite que você selecione livremente um personagem de rank S, facilitando a montagem de uma equipe funcional logo de cara. A própria interface de invocação foge do comum, utilizando um tabuleiro de jogo de mesa onde cada pull é representado pelo rolar de dados, o que torna o processo visualmente divertido e menos monótono do que as animações tradicionais.

A progressão de equipamentos também foge do óbvio com o sistema de artefatos, que abandona o grind passivo de menus por algo muito mais tátil e envolvente. Após coletar núcleos em batalhas, você acessa uma interface de console onde deve encaixar blocos de atributos no estilo Tetris. É necessário jogar um mini-game de organização espacial para otimizar o espaço do console, visando completar conjuntos específicos que liberam bônus significativos de status, como taxa crítica e dano crítico.

Conclusão: Vale a pena morar em Hethereau?

Para resumir, Neverness to Everness entrega uma experiência sólida e extremamente ambiciosa ao unificar sistemas complexos de simulação de vida, gestão de negócios e exploração urbana em um conjunto que, surpreendentemente, funciona. Entretanto, o título ainda tropeça em problemas técnicos e vícios de design antigos, com mecânicas que podem parecer simples demais ou excessivamente dependentes de fórmulas já saturadas no mercado. O visual incrível, e a trilha sonora impecável conseguem sustentar o interesse inicial e criam uma atmosfera de imersão que acaba prendendo o jogador.
Essa imersão é fortalecida pela generosidade do sistema gacha, que ao abandonar a mecânica do 50/50, garante que o jogador não se sinta punido por tentar obter seus personagens favoritos. No entanto, o ritmo da história e os problemas de performance no PC são obstáculos reais que impedem o jogo de atingir uma nota maior nesse primeiro dia.

Mesmo com esses problemas, NTE consegue ser uma alternativa refrescante e cheia de personalidade, oferecendo razões para o jogador existir no mundo que vão muito além do grind diário. Para concluir, o título se posiciona como uma jornada rica em conteúdo e visualmente impactante, sinalizando que a Hotta Studio está disposta a desafiar os padrões estabelecidos do gênero.

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75 Nota

Neverness to Everness

Bom

Neverness to Everness é um ambicioso RPG de mundo aberto que funde um combate frenético focado em esquivas com uma simulação de vida urbana profunda, permitindo que os jogadores dirijam veículos, gerenciem negócios e explorem a vibrante metrópole de Hethereau. O título se diferencia por um sistema gacha generoso que remove a mecânica de 50/50, garantindo o personagem desejado, embora enfrente desafios técnicos como stutters iniciais no PC e instabilidade em dispositivos móveis. Apesar da atmosfera imersiva e trilha sonora excelente, a experiência é prejudicada por um ritmo narrativo lento, diálogos extensos e travas de nível que interrompem a progressão com missões secundárias repetitivas.

Desenvolvedor Hotta Studio
Publicadora Iwplay World Interactive Entertainment, Perfect World Games
Lançamento 29/04/2026
Plataformas Android, PC (Microsoft Windows), iOS, PlayStation 5, Mac
Plataforma jogada PC
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Não
Cópia Cedida pela publicadora
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Bernardo Cortez

Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.

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