Análise: Mortal Shell 2

A consagração sombria de uma fórmula que encontrou sua própria identidade

Bruno Degering ·

Quando a Cold Symmetry lançou o primeiro Mortal Shell em 2020, a sensação era de um experimento promissor: um jogo compacto, com ideias visuais fortes e uma mecânica de petrificação instigante, mas limitado em escopo e variedade. Com Mortal Shell 2, o estúdio não apenas expande horizontes, mas reescreve as próprias bases da experiência. O resultado é um RPG de ação sombrio, implacável e muito mais maduro, que deixa de ser apenas uma homenagem aos mestres do gênero para se firmar como uma obra de peso por mérito próprio.

Narrativa e Atmosfera: A decadência em torno do Tar

A trama de Mortal Shell 2 nos coloca novamente nas terras decrépitas de Fallgrim, agora retratadas com uma escala muito mais grandiosa e opressora. Assumimos uma entidade primordial que precisa navegar pelas ruínas de uma civilização consumida pelo culto e vício em Tar — uma substância sagrada, mística e altamente narcótica refinada a partir da essência de seres celestiais.

A construção de mundo é rica e sutil, entregue por meio de diálogos enigmáticos com figuras estranhas, inscrições antigas e descrições detalhadas de itens. Não é uma história contada de forma mastigada, mas sim uma tapeçaria de desolação e horror cósmico que recompensa quem gosta de investigar cada canto e entender ou abraçar a loucura. Confesso que entender de primeira essas narrativas e plano de fundo de jogos Souls-like não é meu forte… eu vou só pela pancadaria.

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O Combate Reinventado: A ousadia da Postura sobre a Estamina

A decisão de design mais impactante de Mortal Shell 2 é a eliminação da barra de estamina tradicional. Em um gênero onde o gerenciamento de fôlego costuma ditar o ritmo de cada movimento, o jogo opta por um dinamismo agressivo apoiado em um sistema de Postura.

  • Pressão Contínua e Desgaste: Em vez de recuar para esperar o fôlego encher, o foco é manter o combate ativo. Golpes contínuos, esquivas precisas e, acima de tudo, bloqueios e aparos bem executados enchem a barra de postura dos adversários. Ao quebrar a guarda do inimigo, abre-se a brecha para finalizações brutais e viscerais. Imagine algo parecido com o que temos em Sekiro.
  • Compromisso com cada Ação: A ausência de barra de fôlego não significa liberdade para apertar botões sem pensar. O jogo não permite o cancelamento de animações no meio dos golpes. Cada investida exige leitura de tempo; errar um golpe pesado contra um chefe (e até mesmo inimigos comuns) ainda resulta em punição severa.

Carcaças (Shells): Classes com Identidades Fortes

A variedade tática de Mortal Shell 2 cresceu exponencialmente com oito Carcaças jogáveis, cada uma funcionando como uma classe com atributos, árvores de progressão e passivas muito bem definidas.

Figuras ágeis e esguias como Tiel recompensam um estilo de guerrilha, usando sombras e esquivas prolongadas para flanquear oponentes. Outras apostam em uma dinâmica de altíssimo risco e recompensa ganhando bônus de dano e descargas elementais devastadoras conforme sua própria vida diminui, exigindo que o jogador dance à beira da morte para extrair seu potencial máximo. Carcaças mais pesadas e defensivas continuam presentes, permitindo construções sólidas para quem prefere absorver impacto e contra-atacar com força bruta.

Não vou me estender muito porque é muito interessante descobrir a lore de cada uma e ir aumentando a afinidade com o estilo que se encaixa melhor com o sua forma de jogar.

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Um Arsenal Versátil e Armas de Longo Alcance

O repertório ofensivo também dá um salto substancial. Além de categorias corpo a corpo variadas — que vão da agilidade furiosa de foices e adagas duplas ao peso esmagador de machados de batalha —, o jogo introduz armas secundárias de disparo.

Seja usando uma besta clássica, disparadores de pregos que funcionam como escopetas medievais ou repetidores de fogo contínuo, as armas de longo alcance deixam de ser meros utilitários de atração e passam a ser ferramentas ativas de controle de multidão e combate tático. Além disso, modificadores podem ser usados para dar ainda mais protagonismos para essas armas nas suas batalhas, podendo virar um item quase que primário se você quiser.

Estrutura de Mundo e Exploração: Dezenas de Desafios Feitos à Mão

Fallgrim se divide em grandes regiões interconectadas que fogem do vazio da geração procedural. São mais de dezenas e mais dezenas de calabouços construídos à mão, repletos de atalhos, segredos, materiais de aprimoramento raros e chefes opcionais.

Os chefes da campanha principal e das masmorras mais profundas trazem um salto técnico visível: padrões de ataque mais variados, fases distintas e exigência de domínio sobre a mecânica de postura. A sensação de progresso ao dominar o ritmo de um chefe difícil é genuinamente gratificante.

Eu achei muito similar a como o mundo de Nioh 3 foi criado, na questão da exploração. Você poder ir direto pra o seu objetivo, atrás de novas Shells por exemplo, ou investigar novas áreas, conhecer mais da história do jogo e buscar itens de melhoria.

Sua Base de Operações e as Regras do Jogo

Em vez de te soltar em um mundão sem rumo, Mortal Shell 2 aposta em um ponto de encontro principal, a fortaleza de Marrow Keep, que funciona como a sua verdadeira casa no jogo. É lá que você descansa, conversa com outros personagens para entender melhor a história, confere o seu progresso geral e faz melhorias nas suas armas e habilidades.

O sistema de viagem entre as fases é bem divertido e prático: da sua base, o personagem é literalmente atirado por uma catapulta até a região escolhida, permitindo que você selecione direto em qual ponto de controle quer pousar para começar a explorar, o que poupa bastante tempo de caminhada.

Como todo bom jogo do gênero, as regras clássicas de sobrevivência continuam firmes em Mortal Shell 2. Derrotar monstros rende recursos que você gasta para subir de nível nos pontos de descanso espalhados pelo mapa, que também funcionam como o local onde você renasce ao ser derrotado. Se você morrer, todo esse recurso acumulado fica caído no chão esperando pelo resgate.

Caso seja derrotado novamente antes de chegar lá, perde tudo para sempre. Para ajudar a aguentar a pressão, explorar bem cada canto dos cenários recompensa você com itens especiais que aumentam tanto a quantidade máxima de poções de cura quanto a quantidade de vida que cada frasco recupera.

Pedras de Tar: Monte o seu Próprio Estilo de Luta

Para ir além do simples ganho de níveis, Mortal Shell 2 traz as chamadas Tarstones, que são pedras místicas equipáveis capazes de conceder poderes passivos e mudar o comportamento do seu personagem durante os combates. Cada uma dessas pedras conta com quatro níveis de força e evolui de um jeito muito natural: basta mantê-la equipada e derrotar inimigos para que ela acumule experiência própria ao longo da jornada.

Assim que a pedra atinge a experiência necessária, você pode voltar à sua base e usar a forja local para pagar algumas moedas e subir o nível do artefato. Esse ciclo de exploração e aprimoramento faz com que você sinta uma evolução constante, montando combinações de habilidades que deixam o seu guerreiro muito mais preparado para encarar os chefes mais complicados e que exigem estratégias diferentes.

Dificuldade Orgânica, Modificadores e investimento

Mesmo sem oferecer seletores convencionais no menu inicial, Mortal Shell 2 se destaca pela flexibilidade inteligente em como permite que cada jogador dite o peso do seu desafio:

  • Acessibilidade Opcional (Item de Alívio): Para quem quer vivenciar a atmosfera ou destravar um ponto de frustração, é possível utilizar um item específico que reduz significativamente o peso dos combates. A contrapartida é clara e honesta: o uso desse recurso desabilita as conquistas e troféus, preservando o valor do desafio original sem bloquear a experiência de quem busca um ritmo mais brando.
  • Dificuldade Elevada e Conteúdo Exclusivo: No extremo oposto, jogadores que dominarem a jogabilidade podem ativar modificadores para tornar a jornada ainda mais impiedosa. Esse modo não só aumenta o dano dos inimigos, mas também recompensa a audácia com itens superiores e conteúdos/encontros exclusivos que não existem na dificuldade padrão.
  • New Game+: Após os créditos, o ciclo se renova. Manter seu arsenal, carcaças maximizadas e melhorias contra versões drasticamente fortalecidas dos monstros garante que a rejogabilidade continue alta para quem busca refinar suas builds.

A campanha principal de Mortal Shell 2 gira em torno de 30 a 40 horas, praticamente dobrando o tempo de vida do primeiro título.

Ainda assim, como é praxe no ecossistema Souls-like, esse número flutua bastante de acordo com o perfil de cada um: jogadores focados na rota crítica podem terminar mais rápido, enquanto aqueles que limparem todas as masmorras secundárias, testarem múltiplas Carcaças e buscarem o domínio completo de cada chefe facilmente passarão dessa marca.

Gráficos, Som e Performance de Mortal Shell 2

Visualmente, a transição para a Unreal Engine 5 coloca Mortal Shell 2 em outro patamar estético. A direção de arte entrega uma iluminação sombria impecável, armaduras com desgastes metálicos críveis, poças de lodo reflexivas e inimigos com design grotesco e detalhado. Os problemas aqui são os característicos da UE5 que todos conhecemos: Pop up de texturas ocasionais e pequenas quedas de FPS mesmo no PS5 Pro.

O trabalho de áudio se destaca pelo impacto da trilha que te leva por momentos do jogo e o estouro sonoro seco dos golpes. Mortal Shell 2 entrega uma ótima experiência técnica no Playstation, mas nada que seja extremamente memorável por sua otimização.

Conclusão da análise de Mortal Shell 2

Mortal Shell 2 é a prova definitiva do amadurecimento da Cold Symmetry. O estúdio pegou o conceito inicial do primeiro título, removeu o excesso de rigidez e entregou um RPG de ação sombrio com identidade própria, combate fluido e dezenas de horas de conteúdo de altíssima qualidade.

O grande triunfo da experiência em Mortal Shell 2 está na coragem de abandonar a tradicional barra de estamina em favor de um sistema de postura dinâmico, que premia a agressividade calculada e torna as lutas muito mais viscerais. Essa evolução mecânica se apoia em uma variedade impressionante: as oito Carcaças jogáveis realmente transformam o estilo de jogo, enquanto o novo arsenal de armas corpo a corpo e de disparo adiciona camadas táticas inéditas. Para completar, a estrutura com mais de 60 masmorras artesanais, o visual deslumbrante na Unreal Engine 5 e as soluções inteligentes para calibrar o desafio, elevam o fator replay a outro patamar.

Por outro lado, Mortal Shell 2 não está totalmente isento de arestas. A câmera ainda pode pregar peças e se tornar um obstáculo em confrontos dentro de corredores e cantos muito estreitos das masmorras. Além disso, a ausência de cancelamento de animações no meio dos golpes, combinada com a liberdade de não ter estamina, cria uma curva de aprendizado que pode punir severamente quem espera um jogo de ação desenfreado e sem compromisso em cada botão pressionado.

Colocando tudo na balança, os deslizes pontuais passam longe de ofuscar o brilho da obra. Mortal Shell 2 entrega uma das jornadas mais sólidas, desafiadoras e envolventes do gênero nos últimos anos, firmando-se como uma parada obrigatória tanto para veteranos sedentos por superação quanto para aqueles que curtem um Souls-like que pega um pouco na sua mão para diminuir a frustração.

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86 Nota

Mortal Shell II

Excelente

Mortal Shell 2 supera seu antecessor em todos os aspectos, entregando um combate mais ágil sem estamina, dezenas de masmorras ricas em exploração e um visual impressionante na Unreal Engine 5. Trata-se de uma evolução grandiosa e indispensável para qualquer fã de RPGs de ação sombrios.

Desenvolvedor Cold Symmetry
Publicadora Playstack
Lançamento 20/08/2026
Plataformas Xbox Series X|S, PC (Microsoft Windows), PlayStation 5
Plataforma jogada PS5
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora

Bruno Degering

Gamer há tanto tempo que usa consoles como referência cronológica para lembranças de sua vida. Amante de Mega Man, Resident Evil e Warcraft. Se gaba por ter zerado Battletoads aos 9 anos mas abandonou Bloodborne com 26.

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