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Análise: Otherside Tapes: Favela

Uma experiência de terror que explora o imaginário brasileiro

Leonardo Coimbra ·

Depois de AILA, a Pulsatrix Studios retorna ao terror com Otherside Tapes: Favela, desenvolvido em parceria com MaxMRM, conhecido por seu trabalho como diretor criativo. Desta vez, o estúdio aposta em uma proposta bastante particular para nós brasileiros, especialmente para quem conhece de perto a realidade das favelas e seus cenários.

Ambientado em 2006, o jogo acompanha Claudio, um investigador de atividades paranormais que registra suas experiências com uma câmera de filmagem, em uma época em que esse equipamento ainda não era tão acessível quanto os celulares de hoje. Sua investigação o leva à Favela das Almas, mais especificamente à Rua 7, um local marcado por relatos de desaparecimentos. Ao chegar lá, Claudio acaba preso em uma dimensão sobrenatural e precisa descobrir o que aconteceu para encontrar uma saída.

A partir daí, começa uma experiência curta, mas bastante angustiante. Entre relatos deixados por outras vítimas, documentos e pistas sobre um incêndio que matou diversas pessoas décadas antes, o jogador precisa reconstruir os acontecimentos enquanto tenta sobreviver e escapar a um lugar cada vez mais perturbador.

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E por falar em perturbador, a solução para Claudio escapar desse ambiente é igualmente nojenta e angustiante. Será necessário pegar três partes de corpos específicos de três pessoas para conseguir sua liberdade. Isso impacta diretamente na história abraçando a ambientação, que é um dos maiores destaques do jogo.

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Uma favela brasileira transformada em pesadelo

A representação da Favela das Almas é um dos pontos mais interessantes de Otherside Tapes: Favela. Suas vielas apertadas, paredes de cimento, sacos de lixo e construções simples ajudam a criar um cenário que parece familiar, mas que ganha contornos cada vez mais sinistros conforme a investigação avança.

Há também pequenos detalhes que dão personalidade ao ambiente, como um filtro de barro em uma cozinha ou a inscrição “Rumo ao Hexa”, uma referência que continua dolorosamente atual desde a Copa de 2006. São elementos discretos, mas que reforçam a identidade brasileira do jogo sem precisar chamar atenção o tempo todo.

A ambientação ganha ainda mais força com a mecânica dos relógios de parede espalhados pelo cenário. Ao ativá-los, Claudio acessa camadas diferentes daquela realidade, cada uma mais sombria e perturbadora que a anterior. A mudança não se limita à iluminação: os próprios habitantes daquele lugar parecem cada vez mais deformados, como bonecos de cera desfigurados, enquanto sons de choro e lamentos sugerem que aquelas almas continuam presas a um sofrimento interminável.

O trabalho sonoro em Otherside Tapes: Favela é fundamental para sustentar essa atmosfera. A trilha mantém a tensão durante a exploração, enquanto os ruídos e as vozes das almas reforçam a sensação de desconforto. A dublagem em português de Claudio também é competente, embora o protagonista não tenha tantas falas. O conjunto funciona porque o jogo entende que, nesse tipo de terror, nem sempre é necessário mostrar algo acontecendo para deixar o jogador incomodado.

Quebra-cabeças e exploração sustentam o gameplay

Otherside Tapes: Favela se apoia principalmente em dois pilares: exploração e resolução de quebra-cabeças. Não existe um sistema de combate propriamente dito, então o avanço depende de investigar os ambientes, encontrar itens e interpretar as pistas disponíveis.

Alguns desafios são bastante simples, como encontrar uma chave de fenda para remover um parafuso ou utilizar chaves em cadeados correspondentes. Outros, porém, exigem mais atenção e raciocínio. Assim como em AILA, a Pulsatrix demonstra ter um bom entendimento de como construir quebra-cabeças lógicos, que exigem a leitura de instruções, a identificação de pistas e a conexão entre diferentes informações. São momentos em que vale a pena parar, pensar e tentar entender a solução, tornando a descoberta bastante recompensadora.

A exploração, por sua vez, ganha tensão com as mudanças de realidade provocadas pelos relógios. Além de alterar o cenário, essas transições introduzem ameaças que precisam ser enfrentadas sem armas. Alguns inimigos só avançam quando Claudio deixa de olhar diretamente para eles, criando uma dinâmica em Otherside Tapes: Favela que lembra os fantasmas de Super Mario. Enquanto você os observa, eles permanecem parados; basta desviar o olhar para que comecem a perseguição.

Isso transforma corredores escuros e vielas estreitas em situações de constante apreensão. É preciso observar os arredores, decidir quando avançar e administrar a presença de diferentes criaturas, sem saber exatamente qual delas pode começar a persegui-lo. O visual deformado dos inimigos e os sons que acompanham seus movimentos tornam esses encontros ainda mais desconfortáveis.

A principal forma de defesa é fugir. Mais adiante, Claudio consegue utilizar o flash da câmera para atordoar temporariamente as criaturas, mas essa ferramenta não transforma o jogo em um combate tradicional. A proposta é justamente fazer com que o jogador se sinta vulnerável, e a combinação de exploração, quebra-cabeças e perseguições funciona bem para isso.

Bom desempenho, mas alguns problemas de polimento

Um aspecto positivo em Otherside Tapes: Favela é que não encontrei os problemas de desempenho que me incomodaram em AILA. A experiência foi bastante estável, sem os tropeços de performance que poderiam comprometer o ritmo do terror.

Visualmente, o jogo também faz escolhas coerentes com sua proposta. O filtro de câmera que remete aos equipamentos de 2006 ajuda a estabelecer a época e combina com a perspectiva da filmagem, além de suavizar a necessidade de um visual extremamente realista. É uma solução que contribui tanto para a identidade estética quanto para a atmosfera.

Por outro lado, ainda existem problemas de polimento que merecem atenção em Otherside Tapes: Favela. Em determinado momento, encontrei uma parede invisível que permitia acessar uma área pela qual eu não deveria passar. Também tive dificuldades com a leitura das instruções de um quebra-cabeça. Simplesmente não conseguia rolar a página até a quinta regra, ficando limitado à quarta. Em outras ocasiões, as próprias regras apareciam e desapareciam, obrigando-me a sair e retornar ao menu para consultá-las novamente.

São falhas pontuais, mas que prejudicam a fluidez de uma experiência baseada justamente na observação e na interpretação de pistas. Considerando a qualidade geral de Otherside Tapes: Favela, são problemas que poderiam ter recebido mais atenção e que espero ver corrigidos no lançamento ou nos primeiros dias após ele.

Otherside Tapes: Favela é uma boa experiência, com ressalvas

Gostei bastante de Otherside Tapes: Favela e terminei a experiência positivamente surpreso. Comparando-o diretamente com AILA, há aspectos de que gostei mais em um e outros que considero melhores no outro, mas o novo projeto da Pulsatrix consegue entregar uma experiência de terror bastante competente.

É evidente que Otherside Tapes: Favela possui um escopo mais modesto, concentrado na exploração de uma área relativamente limitada e em quebra-cabeças, sem a ambição de apresentar uma grande variedade de localidades ou uma narrativa excessivamente complexa. Isso não chega a ser um problema, pois a força da experiência está na maneira como a ambientação brasileira, os enigmas e as criaturas trabalham juntos para provocar desconforto.

O que impede o jogo de ser ainda melhor são algumas falhas de polimento que precisam de ajustes. Ainda assim, o saldo é positivo, sobretudo pela atmosfera e pela identidade do cenário. Otherside Tapes: Favela pode ser uma experiência desagradável no melhor sentido possível para quem procura terror, e mostra que a Pulsatrix continua sabendo construir situações capazes de deixar o jogador genuinamente angustiado.

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78 Nota

Otherside Tapes: Favela

Bom

Otherside Tapes: Favela entrega uma boa experiência de terror, com destaque para a ambientação brasileira, a atmosfera angustiante e os excelentes quebra-cabeças. A exploração e as perseguições funcionam bem, embora alguns problemas de polimento prejudiquem a fluidez em momentos pontuais. No geral, é um jogo competente que mostra a força da Pulsatrix no gênero.

Desenvolvedor Pulsatrix Studios
Publicadora Pulsatrix Studios
Lançamento 22/10/2026
Plataformas PC (Microsoft Windows)
Plataforma jogada PC
Dublado PT-BR Sim
Legendado PT-BR Sim
Onde comprar

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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