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Análise: Virtue and a Sledgehammer

Leonardo Coimbra ·

Virtue and a Sledgehammer é o novo jogo publicado pela Devolver Digital e desenvolvido pela Deconstructeam, estúdio responsável por The Red Strings Club e The Cosmic Wheel Sisterhood. Ambos me marcaram pela qualidade de suas narrativas e pela capacidade de abordar questões complexas de maneira pessoal. A expectativa, portanto, era descobrir se o estúdio conseguiria repetir esse feito em sua nova obra.

A resposta é sim. Nas aproximadamente três horas de experiência, Virtue and a Sledgehammer constrói uma experiência narrativa que questiona o significado da humanidade, da família e da própria vida. Para isso, abre mão de mecânicas elaboradas e coloca o jogador diante de situações que, embora partam de uma premissa de ficção científica, possuem implicações bastante pessoais.

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O que nos torna humanos?

Em Virtue and a Sledgehammer controlamos Pratelle, uma mulher que chega a uma pequena comunidade carregando uma enorme marreta e tomada pela raiva. Seu objetivo é encontrar Nina, sua irmã mais velha e confrontá-la, mas o caminho até ela envolve descobrir o que aconteceu com a população local e por que Pratelle rejeita tão veementemente a realidade que sua irmã ajudou a construir.

A premissa envolve uma tecnologia capaz de transferir a mente humana para corpos robóticos, preservando memórias, pensamentos e emoções. Desenvolvida por Nina inicialmente para salvar a própria mãe, que sofria de uma doença terminal, a tecnologia acabou transformando toda a comunidade. O que para Nina representa uma maneira de superar as limitações do corpo e livrar as pessoas do sofrimento é visto por Pratelle como uma negação da própria vida. Para ela, a existência humana não pode ser reduzida à reprodução de uma consciência em um corpo metálico.

É nesse conflito que Virtue and a Sledgehammer encontra sua principal força. Pratelle e Nina não representam simplesmente duas posições entre o certo e o errado. Enquanto a protagonista reage de maneira emocional àquilo que considera uma perda irreparável, sua irmã adota uma perspectiva mais analítica, enxergando na tecnologia a possibilidade de preservar pessoas que, de outra forma, morreriam. Ambas possuem motivações compreensíveis, e é justamente isso que torna o embate interessante.

Ao explorar a comunidade, encontramos pessoas de diferentes idades, origens e condições, cada uma lidando à sua maneira com a nova existência. Algumas parecem satisfeitas com a transformação; outras não aceitam o que aconteceu e chegam a desejar que suas cópias sejam destruídas. Há também quem reconheça que a tecnologia resolveu problemas que antes pareciam incontornáveis, mas ainda assim questione se o resultado pode ser considerado uma continuação da vida.

Virtue and a Sledgehammer não precisa recorrer a longas explicações para fazer essas situações funcionarem. A própria existência desses indivíduos já levanta perguntas difíceis: se uma pessoa mantém suas lembranças, sua personalidade e sua capacidade de sentir, ela continua sendo quem era? E se o corpo original morreu, estamos diante da mesma pessoa ou apenas de uma reprodução convincente dela?

Essas questões ganham uma dimensão ainda mais pessoal quando pensamos nas pessoas que amamos. Já acompanhei situações envolvendo idosos e doenças, e isso fez com que alguns dos dilemas apresentados aqui tivessem um peso especial durante minha experiência. É inevitável se perguntar se aceitaríamos uma tecnologia semelhante para salvar um familiar, mesmo sabendo que o resultado talvez não fosse exatamente a pessoa que conhecemos.

E além desse debate profundo, o jogador também é convidado a entender melhor o relacionamento entre as irmãs e sua mãe. Através de diversos flashbacks é possível ver os embates filosóficos, amizade e o distanciamento entre as irmãs, além de ver a deteorização de sua mãe. Isso tudo nos leva, mais uma vez, a pensar em relacionamentos próximos e reais que muitos temos com nossas famílias.

Essa é a qualidade da narrativa de Virtue and a Sledgehammer. Ela não se limita a apresentar um debate filosófico distante da nossa realidade. Ela nos coloca diante de escolhas que poderiam envolver nossos próprios familiares e nos faz considerar até onde estaríamos dispostos a ir para evitar uma perda. O jogo não oferece respostas definitivas, mas consegue fazer com que perguntas aparentemente simples se tornem muito mais difíceis de responder.

Ambientação e direção visual

Visualmente, Virtue and a Sledgehammer segue uma estética independente que me lembrou alguns jogos da época do PlayStation original, especialmente Fear Effect, embora com uma apresentação mais pixelada. Não é uma proposta que busca o realismo, mas uma identidade visual que combina com o universo apresentado e permite que o jogo desenvolva sua atmosfera sem depender de recursos técnicos sofisticados.

A escolha também conversa com o contraste central da narrativa: de um lado, temos corpos metálicos que reproduzem características humanas; de outro, a protagonista, que enxerga nessa transformação justamente a perda daquilo que considera essencial. A ambientação reforça esse conflito sem precisar competir com a história pela atenção do jogador.

Gameplay e mecânicas: uma experiência simples

O gameplay é, sem dúvida, o aspecto menos elaborado da experiência. Virtue and a Sledgehammer pode ser considerado um walking simulator com alguns elementos de combate e exploração. Não existem sistemas complexos de habilidades, esquivas ou movimentação avançada. Pratelle caminha pelos cenários e utiliza sua marreta para destruir obstáculos e enfrentar os robôs que aparecem pelo caminho.

Os ataques são bastante simples. É possível desferir golpes mais rápidos ou carregar a marreta para executar pancadas mais fortes. Os inimigos também apresentam pouca variedade, com robôs comuns, unidades capazes de se arrastar e modelos de segurança mais avançados que aparecem posteriormente. As diferenças alteram um pouco os confrontos, mas não chegam a transformar o combate em algo especialmente interessante.

A exploração oferece um incentivo adicional por meio de objetos e segredos que podem ser encontrados durante o percurso. Alguns desses elementos desbloqueiam memórias e acrescentam informações sobre a história de Pratelle e sua família, contribuindo para a compreensão de suas motivações.

Ainda assim, é importante deixar claro que o combate e as mecânicas não são o foco da experiência em Virtue and a Sledgehammer. A marreta funciona tanto como ferramenta de progressão quanto como uma extensão da raiva da protagonista, mas o jogo não desenvolve essa ideia em um sistema de ação particularmente profundo. Seu interesse está muito mais no que encontramos pelo caminho e nas questões levantadas por esses encontros do que na maneira como enfrentamos os obstáculos.

Uma experiência curta que permanece na cabeça

Virtue and a Sledgehammer confirma a capacidade da Deconstructeam de criar experiências narrativas que vão além de simplesmente contar uma história. Assim como aconteceu comigo em The Red Strings Club e The Cosmic Wheel Sisterhood, o novo jogo consegue utilizar sua premissa para explorar questões humanas e provocar reflexões que continuam fazendo sentido depois que a experiência termina.

O gameplay simples e a pouca variedade dos combates deixam claro que não estamos diante de um jogo interessado em oferecer sistemas elaborados. Felizmente, isso não compromete sua principal proposta, que é conduzir o jogador por uma narrativa curta, mas repleta de dilemas difíceis de ignorar.

O que significa continuar vivendo? Uma consciência transferida para uma máquina ainda é a mesma pessoa? E, diante da possibilidade de salvar alguém que amamos, conseguiríamos aceitar uma solução que talvez preservasse suas memórias e emoções, mas não necessariamente aquilo que entendemos como sua existência?

Virtue and a Sledgehammer não pretende responder a tudo isso, e nem precisa. Sua maior qualidade está em questionar certezas e mostrar como uma mesma situação pode ser interpretada de maneiras completamente diferentes, dependendo de nossas experiências, crenças e relações pessoais.

Por isso, considero Virtue and a Sledgehammer mais um trabalho de destaque da Deconstructeam. Mesmo com mecânicas limitadas e uma duração de aproximadamente três horas, é uma experiência narrativa que consegue transformar uma premissa de ficção científica em um debate genuinamente humano. E, para mim, esse é o tipo de jogo que justifica sua existência. Aquele que não precisa oferecer todas as respostas, porque sabe fazer as perguntas certas.

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90 Nota

Virtue and a Sledgehammer

Imperdível

Virtue and a Sledgehammer entrega uma experiência narrativa curta, mas marcante, que questiona o significado da humanidade, da família e da vida diante da possibilidade de transferir a consciência humana para corpos robóticos. A Deconstructeam constrói um conflito emocional e filosófico que nos faz refletir sobre até onde iríamos para salvar quem amamos.

Desenvolvedor Selkie Harbour, Deconstructeam
Publicadora Devolver Digital
Lançamento 27/10/2026
Plataformas PC (Microsoft Windows)
Plataforma jogada PC
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora
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Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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