Em uma época em que franquias como Resident Evil e Silent Hill apostam em tecnologias modernas para construir experiências de terror cada vez mais realistas, Tenebris Somnia segue um caminho bastante diferente. Desenvolvido de forma independente na Argentina, o jogo combina uma apresentação visual extremamente retrô com sequências em FMV (Full Motion Video), nas quais atores reais dão vida aos acontecimentos. A proposta remete a uma época em que o gênero explorava soluções bem diferentes das produções atuais, tanto na apresentação quanto na jogabilidade.
A combinação chama a atenção justamente por colocar lado a lado cenas filmadas com atores reais e um jogo que parece ter saído de uma geração muito mais antiga. Resta saber se essa escolha estética funciona além da curiosidade inicial e se o título consegue entregar uma boa experiência de survival horror. Felizmente, a resposta é positiva.
Apesar de algumas limitações visuais, Tenebris Somnia me surpreendeu pela qualidade de sua história, pela ambientação perturbadora e, principalmente, por uma jogabilidade muito mais consistente do que eu esperava.
Aproveite e compre Tenebris Somnia em nossa parceira Nuuvem

Um relacionamento que termina em pesadelo
A história acompanha Júlia, que vai até a casa de seu ex-namorado, Ivan, para buscar alguns pertences e encerrar de vez o relacionamento. Ela ainda possui a chave do apartamento, mas, ao chegar ao local, percebe que algo está errado. A televisão está quebrada, há sinais de acontecimentos violentos e Ivan não está onde deveria. A investigação conduzida pela protagonista logo revela que o término foi muito mais difícil para ele do que para ela.
Incapaz de superar a separação, Ivan recorreu a um livro de magia negra e realizou um ritual para se livrar dos sentimentos que ainda nutria por Júlia. O plano, porém, dá errado, e ele acaba envolvido com entidades que transformam a situação em algo muito mais perigoso. A partir daí, Júlia precisa descobrir o que aconteceu, encontrar o ex-namorado e tentar escapar daquele ambiente distorcido.
O que mais me chamou a atenção foi a maneira como o jogo desenvolve essa premissa. A narrativa não depende apenas do mistério inicial, mas também da construção de um mundo que parece refletir as lembranças, os traumas e o sofrimento de Ivan. Os dois estudaram em uma escola de cinema e chegaram a produzir juntos um curta-metragem de sucesso, detalhe que ajuda a dar contexto à relação entre os personagens e à maneira como suas histórias se entrelaçam.



Existe também uma dinâmica interessante na posição de Júlia. Ela já havia aceitado o fim do relacionamento e não é responsável pela incapacidade de Ivan de seguir em frente, mas acaba presa às consequências das decisões dele. Essa diferença torna sua jornada mais interessante, pois ela precisa enfrentar uma situação que não escolheu e que mal consegue compreender.
Sem entrar em detalhes que poderiam estragar as surpresas, considero a história um dos grandes acertos de Tenebris Somnia. Fiquei envolvido desde os primeiros minutos, tanto pela curiosidade em descobrir o destino de Ivan quanto pela maneira como o jogo apresenta suas entidades e transforma o cenário em uma representação cada vez mais perturbadora desse conflito.


O contraste entre o filme e o jogo
A principal particularidade de Tenebris Somnia está na maneira como apresenta sua história. As sequências em FMV são filmadas com atores reais, maquiagem e efeitos especiais, funcionando como pequenas cenas de um filme de terror. Elas aparecem nos momentos certos para introduzir personagens, criar suspense e apresentar situações importantes, e o resultado é bastante convincente. A qualidade da filmagem, a iluminação e o trabalho de maquiagem ajudam a construir um universo grotesco, com imagens que reforçam a sensação de que há algo muito errado naquele lugar.
O contraste com a parte jogável, entretanto, é enorme. Visualmente, o jogo remete a produções muito antigas, lembrando o primeiro Alone in the Dark, além de aventuras point-and-click e títulos como Clock Tower. É uma estética bastante rudimentar, com cenários pixelados e personagens simples, que parece buscar referências ainda mais antigas do que boa parte dos jogos retrô lançados atualmente.
Essa escolha tem consequências. Embora a proposta funcione e combine com a identidade do projeto, há momentos em que a simplicidade visual atrapalha a leitura dos cenários. Algumas coisas são difíceis de identificar, o que pode prejudicar a compreensão do espaço e a navegação. Também fico com a impressão de que uma abordagem um pouco mais próxima da era do PlayStation 1 ou mesmo de jogos modernos de terror com estética retrô, como Tormented Souls, poderia preservar a identidade do projeto e, ao mesmo tempo, oferecer mais clareza visual e possibilidades de interação.


Não considero os gráficos da parte jogável um grande destaque. Eles cumprem sua função, mas a decisão de adotar uma estética tão limitada acaba trazendo inconvenientes que vão além da aparência. É uma escolha artística legítima, embora nem sempre seja a mais funcional.
Já o áudio é um dos pontos fortes da experiência. Tenebris Somnia não possui dublagem tradicional na parte jogável, mas sua trilha sonora e seus efeitos sonoros fazem um excelente trabalho na construção do terror. Vozes distantes, risadas, gemidos e sons de passos ajudam a criar a impressão constante de que alguma coisa está à espreita. Combinados à iluminação e aos ambientes distorcidos, esses elementos mantêm a tensão mesmo quando não há uma ameaça visível.
No fim, o aspecto audiovisual de Tenebris Somnia funciona melhor quando o filme e o jogo se complementam. As sequências em FMV são muito bem executadas e ajudam a dar personalidade à experiência, enquanto os gráficos retrô cumprem seu papel, mas também representam uma das limitações mais evidentes do projeto.

Survival horror que surpreende
Se a apresentação visual me deixou com algumas ressalvas, a jogabilidade foi uma surpresa bastante positiva. Tenebris Somnia é um survival horror que resgata diversas características clássicas do gênero, incluindo puzzles, exploração, gerenciamento de recursos, armas de fogo, armas brancas e pontos específicos para salvar o progresso. É uma estrutura familiar, mas executada com competência.
A aventura acontece, primordialmente, em um prédio de quatro andares, que funciona como uma espécie de ponto central para a exploração. O avanço exige cumprir determinadas condições para acessar novas áreas, encontrar chaves, resolver enigmas e descobrir como chegar aos lugares necessários. Entretanto, não espere um edifício convencional, com corredores e apartamentos organizados de maneira previsível. As portas podem levar a ambientes completamente diferentes, e a estrutura se torna progressivamente mais estranha conforme Júlia avança.
Essa transformação é um dos aspectos mais interessantes de Tenebris Somnia. Os cenários parecem representar as memórias e o sofrimento de Ivan, e a sensação de estar entrando cada vez mais fundo em um lugar que desafia a lógica contribui tanto para a narrativa quanto para a exploração. Há ambientes abertos e fechados, áreas noturnas e espaços que parecem pertencer a outra realidade. A descida pelo elevador, em particular, reforça essa mudança, levando a lugares cada vez mais grotescos e perturbadores.
Os puzzles também merecem destaque. Alguns são relativamente simples, mas outros exigem atenção, experimentação e bastante paciência para descobrir o que fazer e como avançar. Em determinados momentos, é necessário explorar diferentes áreas, testar possibilidades e entender como os elementos do cenário se relacionam. Gostei dessa abordagem, principalmente porque os enigmas não parecem estar ali apenas para interromper o ritmo da aventura, eles fazem parte da estrutura de exploração e da progressão.



O combate segue a mesma filosofia de sobrevivência. A munição é escassa, então não é possível simplesmente eliminar todos os inimigos que aparecem pelo caminho. Saber quando lutar e quando fugir faz parte da experiência, assim como aprender os padrões dos chefes para encontrar oportunidades de ataque. A possibilidade de correr e desviar dos adversários também é importante, já que economizar recursos pode fazer diferença nos momentos mais difíceis.
O sistema de salvamento de Tenebris Somnia segue a tradição dos survival horrors clássicos, com pontos específicos para registrar o progresso, em vez de um salvamento automático constante. Uma exceção bem-vinda acontece nas batalhas contra chefes. Caso Júlia morra durante esses confrontos, o jogo permite retomar a luta sem obrigar o jogador a refazer todo o caminho anterior. É uma decisão que reduz a frustração sem comprometer a proposta de sobrevivência.
O que mais me surpreendeu foi perceber como todas essas mecânicas funcionam bem apesar da apresentação extremamente simples. A movimentação e a perspectiva, que misturam características bidimensionais com uma exploração que sugere alguma profundidade tridimensional, impõem certas limitações, mas não impedem que Tenebris Somnia ofereça uma experiência consistente. Pelo contrário, a variedade de enigmas, a administração de recursos e a exploração tornam a aventura muito mais interessante do que eu imaginava inicialmente.

Uma proposta com limitações, mas personalidade
O maior mérito de Tenebris Somnia é mostrar que ainda existe espaço para projetos independentes que tentam algo diferente. Em vez de competir diretamente com as grandes produções do gênero, o jogo aposta na combinação entre filmagens com atores reais e uma estrutura de survival horror deliberadamente retrô. É uma identidade que se destaca, sobretudo pela maneira como as cenas filmadas ajudam a desenvolver a narrativa e a tornar o universo mais inquietante.
Por outro lado, não acho que a estética da parte jogável seja necessariamente a melhor escolha para o projeto. Os gráficos excessivamente simples dificultam a identificação de alguns elementos e limitam a clareza dos cenários. Uma apresentação visual um pouco mais elaborada poderia tornar a exploração mais agradável e ampliar as possibilidades de interação sem comprometer a proposta original.
Ainda assim, essas limitações não apagam os acertos. A história é envolvente, a ambientação evolui de maneira interessante, os puzzles oferecem bons desafios e as mecânicas de sobrevivência funcionam como deveriam. É justamente por isso que a experiência me surpreendeu. Eu esperava encontrar um jogo cuja principal qualidade fosse a curiosidade de ver as cenas em FMV, mas acabei encontrando um survival horror competente também naquilo que fazemos entre uma sequência filmada e outra.

Um survival horror que vale a pena conhecer
Como deve ter notado, Tenebris Somnia foi uma surpresa muito positiva. Gostei bastante da história, da maneira como o jogo constrói seu universo perturbador e da qualidade das sequências em FMV, que ajudam a diferenciar o projeto de tantos outros títulos de terror disponíveis atualmente. A trilha sonora e os efeitos sonoros também contribuem para uma atmosfera de constante desconforto, enquanto os puzzles, o gerenciamento de munição e os confrontos com inimigos garantem uma experiência de survival horror consistente.
Minha principal ressalva está na apresentação visual da parte jogável. A estética extremamente retrô tem personalidade, mas também dificulta a leitura de alguns cenários e acaba limitando aspectos que poderiam ser mais bem resolvidos. É uma escolha que entendo, embora considere que uma abordagem um pouco mais elaborada poderia beneficiar o jogo sem descaracterizá-lo.
Mesmo com esse problema, recomendo Tenebris Somnia para quem gosta de jogos de terror, survival horror clássico e histórias que apostam em mistério e situações perturbadoras. É um projeto independente que foge do óbvio e consegue entregar muito mais do que sua aparência inicial sugere. Saí da experiência gostando consideravelmente mais do que esperava, e isso diz bastante sobre a qualidade do que foi construído aqui.

