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Análise: The Alters

Leonardo Coimbra ·

A 11 bit studios construiu sua reputação em cima de uma pergunta incômoda: o que você está disposto a fazer para sobreviver? Seja em meio aos escombros de uma guerra em This War of Mine ou no frio apocalíptico de Frostpunk, suas respostas nunca são fáceis. Com The Alters, o estúdio polonês não só refaz a pergunta, mas a direciona para um espelho, criando um de seus jogos mais complexos, pessoais e psicologicamente desafiadores até hoje.

Nesta análise, vamos mergulhar fundo na gestão de crises de Jan Dolski e suas múltiplas versões, explorando os detalhes que fazem de The Alters uma experiência de ficção científica única e, por vezes, brutal.

The Alters: Um drama quântico e pessoal

A premissa de The Alters nos coloca na pele de Jan Dolski, um simples operário em uma missão interplanetária de vital importância. O objetivo: coletar Rapidium, um recurso com propriedades orgânicas únicas, capaz de se mesclar com outras formas de vida e revolucionar a tecnologia na Terra. A missão, contudo, termina em tragédia. Ao chegar ao planeta, toda a tripulação morre em circunstâncias misteriosas, deixando Jan como o único sobrevivente, isolado a anos-luz de casa.

Sozinho, ele precisa gerenciar uma colossal base móvel, coletar recursos e sobreviver a um ambiente hostil, repleto de anomalias e tempestades magnéticas. A pressão é imensa, e a solução vem de um computador quântico a bordo: a capacidade de criar “Alters”. A partir das memórias de Jan, a máquina identifica momentos cruciais de sua vida — uma escolha de carreira, um confronto familiar, um amor perdido — e gera versões alternativas dele que seguiram caminhos diferentes.

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É aqui que a narrativa transcende o clichê da clonagem. Os Alters não são cópias. São indivíduos distintos: um é um cientista brilhante, outro um técnico pragmático, talvez um botânico sensível. Cada um deles chega a este novo mundo em estado de choque, arrancado de sua própria linha do tempo e forçado a confrontar a realidade de que são uma variação de outra pessoa.

O verdadeiro drama de The Alters está em gerenciar esse conselho de “Jans”. Cada Alter carrega os traumas, desejos e habilidades de sua vida pregressa. É preciso conversar, mediar conflitos e lidar com suas crises existenciais. Tudo isso enquanto um sol impiedoso se aproxima, forçando a base a uma corrida contra o tempo. A história se torna uma teia complexa de dilemas morais e reflexões sobre identidade, questionando quem somos e quem poderíamos ter sido.

O contraste entre o vazio e o lar

A direção de arte e som de The Alters trabalha de forma primorosa para criar uma atmosfera de contrastes.

O mundo exterior é vasto, desolador e silencioso. As paisagens montanhosas e as cavernas profundas, exploradas a pé, evocam uma sensação de solidão e pequenez, quase como em Death Stranding. A trilha sonora aqui remete a um cenário estranho te dando um senso de urgência onde, o som dos passos de Jan e a o barulho das operações de mineração, dominam a experiência. É um ambiente que reforça constantemente o quão perigoso e alienígena é aquele lugar.

Em oposição direta, a base é o refúgio de humanidade. Sua natureza modular permite que o jogador organize e personalize o layout, criando novos módulos e rearranjando-os para otimizar o fluxo. Você vê a base crescer e se adaptar às suas necessidades, com espaços que ganham vida própria: a cabine de comando, os dormitórios, uma área social para relaxamento e o “Ventre”, o inquietante local onde novos Alters são criados. A iluminação e as sombras dão profundidade a cada corredor, e referências visuais, como campos eletromagnéticos, reforçam a temática sci-fi.

A sonoplastia acompanha essa transformação. Dentro da base, o som de tensão e os barulhos da oepração dão lugar a uma calmaria. Há conversas, o barulho das máquinas, diálogos que revelam a personalidade de cada Alter e até música ambiente. A dublagem é um ponto altíssimo, com o mesmo ator entregando nuances, sotaques e tons vocais distintos para cada versão de Jan, tornando crível a interação entre essas facetas de um mesmo homem. O som ambiente muda de acordo com o módulo, com uma música suave nos dormitórios para ajudar a relaxar, por exemplo, criando um ambiente coeso e verdadeiramente imersivo.

The Alters e seu gameplay de 3 pilares

A jogabilidade se divide em três pilares interdependentes, exigindo um malabarismo constante de prioridades.

Exploração externa

O ciclo diário de trabalho, que vai das 7h às 20h, dita o ritmo. Nesse período, é preciso sair da base para explorar o cenário em busca de materiais. Isso envolve não apenas caminhar, mas também desenvolver ferramentas para escalar terrenos íngremes ou usar perfuradoras para remover rochas do caminho. E claro, driblar os possíveis perigos e anomalias que podem se apresentar.

A gestão aqui é dupla: a do tempo, que é limitado, e a da mão de obra, já que você pode designar Alters para coletar recursos, mas isso os torna indisponíveis para outras tarefas.

Gestão da base

Os recursos coletados alimentam o segundo pilar. A base é um organismo vivo que precisa de cuidados constantes. Você começa construindo o essencial, como filtros para a radiação externa e kits de manutenção para os módulos. Com o tempo, as necessidades se tornam mais complexas, exigindo a construção de uma refinaria para criar polímeros avançados, uma área de reciclagem para reaproveitar material orgânico, ou até uma estufa para cultivar alimentos mais saudáveis e melhorar o humor da equipe.

A flexibilidade do layout modular permite otimizar a produção, mas a demanda crescente sempre parece estar um passo à frente da sua capacidade. E esse desafio se torna ainda mais intenso com a proximidade do Sol, assim como quando você sofre algum tipo de influência externa não prevista como uma tempestade magnética.

O gerenciamento dos Alters

Este é o coração do jogo e seu grande diferencial. Os Alters são mais do que trabalhadores especializados; são indivíduos complexos e frágeis. O gerenciamento vai muito além de arrastá-los para uma função. É preciso conversar diariamente, ouvir suas preocupações, mediar disputas e tentar acomodar seus desejos, que se tornam objetivos secundários.

Um minerador e um cientista terão visões de mundo e necessidades completamente diferentes. Ignorar os “fantasmas do passado” de um Alter pode levá-lo à depressão e a tomar decisões drásticas. No meu caso, perdi um membro crucial da equipe por não conseguir gerenciar sua crise a tempo, o que gerou um efeito cascata na moral de todos. É um sistema profundo que transforma a gestão em um delicado exercício de empatia e psicologia.

A genialidade e o peso da punição

The Alters carrega o DNA da 11 bit, mas eleva o conceito de consequência a um novo patamar. Em This War of Mine, por exemplo, a jogabilidade era mais dinâmica. Perder uma partida ou personagem era doloroso, mas recomeçar era relativamente rápido. Você aprendia e tentava de novo, com o ciclo se resolvendo em poucas horas.

Aqui, a experiência é diferente. O investimento de tempo e emoção é muito maior. A jornada para desenvolver sua base, criar seus Alters e se afeiçoar a eles é longa. Por isso, encarar uma tela de “fim de jogo” após 6 ou mais horas de progresso é esmagador. The Alters se torna punitivo a um nível que pode ser considerado excessivo por alguns. Embora seja possível recarregar o início do último dia, muitas vezes o erro fatal já é irreversível, forçando um reinício completo.

Essa característica, embora coesa com a proposta de alto risco de The Alters, é uma faca de dois gumes. A genialidade na profundidade pode se tornar uma barreira. É um alerta válido: The Alters exige paciência e uma alta tolerância à frustração. A primeira tentativa, para muitos, será um fracasso, e a ideia de refazer todo aquele caminho complexo é, no mínimo, intimidante.

The Alters é mais um acerto da 11 Bits Studios

The Alters é uma obra-prima de ficção científica e gestão, solidificando a 11 bit studios como uma das desenvolvedoras mais ousadas da indústria. A premissa é executada de forma brilhante, com uma narrativa madura, uma ambientação imersiva e um sistema de gameplay que interliga de forma inteligente a sobrevivência física e a psicológica.

É um jogo robusto, cheio de detalhes que recompensa o planejamento e a dedicação. No entanto, sua profundidade vem com um preço: uma curva de dificuldade íngreme e um sistema punitivo que pode testar os limites até dos jogadores mais resilientes. A necessidade de recomeçar após um investimento tão grande de tempo é um fator que pode afastar quem busca uma experiência mais branda.

Ainda assim, para aqueles dispostos a pagar esse preço, The Alters oferece uma jornada inesquecível e instigante. É um título que honra a reputação de seu estúdio, desafiando o jogador não apenas em suas habilidades, mas em sua própria percepção de identidade. Sem dúvida, um dos jogos mais marcantes e inteligentes do ano.

Essa análise de The Alters segue nossas diretrizes internas. Confira aqui nosso processo de avaliação.

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95 Nota

The Alters

Obra-Prima

The Alters oferece uma jornada inesquecível e instigante. É um título que honra a reputação de seu estúdio, desafiando o jogador não apenas em suas habilidades, mas em sua própria percepção de identidade. Sem dúvida, um dos jogos mais marcantes e inteligentes do ano.

Desenvolvedor 11 bit studios
Publicadora 11 bit studios
Lançamento 13/06/2025
Plataforma jogada PC
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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