The Sims: o que podemos aprender sobre a vida

Bernardo Cortez ·

Era domingo, véspera de feriado. Neste maio de 2020 da rotina simplificada, pouco importa se é sábado ou não, se estou de férias ou se segunda-feira é feriado no Canadá. Em época de quarentena, meus dias se dividem em dois: dia de trabalhar… e de acordar para jogar The Sims 4 e dormir para continuar jogando, ainda mais com a chegada da nova expansão The Sims 4 Eco Lifestyle (Vida Sustentável) no dia 5 de Junho.

Lembro da primeira vez que joguei como se fosse há tanto tempo quanto realmente foi. Era The Sims 1, lá perto dos anos 2000, e os meus dias eram muito parecidos com os que são hoje, exceto pela parte de parar de jogar para trabalhar, e vice-versa. Naquele tempo, eu não entendia muito do jogo e nem muito da vida, porém lembro claramente do fascínio por criar meus próprios personagens e fazer deles o que quisesse.

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Foi somente agora, com meus por-fazer-trinta-anos e algumas horas de terapia e outras tantas de trabalho que finalmente entendi como é que o jogo funciona. Pensava que o que o fazia incrível era poder me tornar escritora famosa e ter a casa dos sonhos, juntar quantos amantes quisesse sem doer no peito os corações partidos… pensava que o auge era apertar Ctrl+Shift+C e lançar um “motherlode” e que o real apelo era poder resolver minhas questões, quaisquer que fossem, no click de um mouse.

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Foi preciso um apreço de criança com o olhar de um adulto para perceber a maneira nem tão imperceptível assim com que o jogo te faz encarar o mundo de gente grande, efetivamente jogando para segundo plano a euforia de poder viver a vida perfeita.

Hoje, se me perguntassem um jogo para entrar no currículo escolar, eu escolheria The Sims.  Não que a minha opinião signifique muita coisa, mas Will Wright criou uma simulação brilhante das relações humanas e quando decidi anotar as coisas que vinha percebendo, o resultado foi o fio de Twitter que chamei de:

“o que você pode aprender sobre a vida e a desigualdade jogando The Sims”

  • mães cuja gravidez são repletas de comida de qualidade e bons sentimentos (felicidade, amor, conforto, diversão) tendem a dar à luz bebês mais inteligentes e saudáveis;
  • desde o nascimento até os primeiros meses de vida, bebês com pais carinhosos se tornam crianças mais felizes, com uma chance consideravelmente maior de ir bem na escola quando tiverem idade o suficiente para frequentá-la;
  • crianças com acesso à alimentos de qualidade e sono suficiente têm desempenho melhor na escola, tendência que também se reflete no desempenho de universidades e empregos
  • crianças com excelentes relacionamentos com seus pais e amigos tendem a se tornar adultos bons e protetores;
  • se seus filhos estiverem com fome, com sono ou sentindo falta de conexão humana, eles não conseguem se concentrar em aprender;
  • boas moradias são caras; quanto mais confortável uma cama, mais cara ela é e melhor você se recupera do dia;
  • comida boa é cara; quanto maior a variedade em seu cardápio, mais caro é fazer as refeições e mais rápido e melhor você satisfaz sua fome;
  • desejos; seja desenvolver uma nova habilidade ou provar uma nova receita, custa dinheiro e recursos;
  • quanto mais você satisfaz seus desejos, mais ferramentas você tem para navegar pela vida e pelos relacionamentos (recompensas duradouras);
  • se você estiver cansado, terá dificuldade de aprender novas habilidades;
  • se você estiver realmente cansado, com fome ou solitário, você não consegue nem arrumar sua própria cama;
  • em certas carreiras, na verdade na maioria delas, você não consegue se desenvolver ou ser promovido se não tiver amigos o suficiente;
  • pessoas más têm mais dificuldade em fazer amigos e mantê-los;
  • luxos como possuir uma sauna em casa podem recuperar seu Sim mais rápido do que a maioria das camas ou chuveiros; mais uma vez, uma boa moradia é cara e, quanto melhor ela é, melhor você navega pela vida;
  • você pode impressionar pessoas falando sobre sua riqueza e elas ficarão impressionadas mas, da mesma forma, o mesmo acontecerá se você falar sobre suas habilidades de escrita ou culinária;
  • aprendemos mais rápido coisas que amamos;
  • você receberá um salário maior se tiver um diploma, mesmo para tarefas que você não precisa de diploma para realizar;
  • se você não liga para seus amigos de vez em quando, corre o risco de perdê-los;
  • ter uma vida muito gratificante, faz com que perder um ente querido seja doloroso, mas se você luta para viver, a perda de um ente querido pode matá-lo;
  • se você ficar vivo por tempo o suficiente, seus amigos e entes queridos morrerão ao seu redor;
  • não quero nem mencionar os animais de estimação, eles morrem cedo demais. você nunca pode amá-los por tempo o suficiente;
  • a coisa que eu mais queria que fosse verdade sobre a vida real e não é; você não pode trapacear. você não pode trapacear para ganhar dinheiro do nada e não pode conhecer o mundo se não sair de casa ou usar um código para satisfazer seus desejos, porém;
  • e é aqui a que tudo isso se resume; algumas pessoas vêm ao mundo com a melhor casa, os pais mais atenciosos, os cérebros mais bem formados eles comem melhor, dormem melhor, se divertem mais, têm sucesso mais rápido
  • no The Sim, você pode “comprar” muito dinheiro, amigos, sentimentos, relacionamentos, sucesso trapaceando ou;
  • se você jogar por tempo o suficiente, poderá usar seus pontos de felicidade para ser recompensado com diversos atributos. Entre eles, “Simunidade” contra doenças, “Herança” contra a pobreza, “Metabolismo rápido” para manter o corpo desejado ou até se tornar “Ultracriativa(o)” em um piscar de olhos;
  • na vida real, você não pode trapacear, mas a título de comparação, falemos então de privilégios. essencialmente, eles funcionam da mesma forma.

Algumas pessoas comem melhor, dormem melhor, se divertem mais, e podem focar toda a energia que não estão perdendo com outras coisas em alcançar o que querem e o que consideram sucesso. Mesmo em um mundo fictício, trapacear significa ter de imediato o que muitos não têm. E não sou apenas eu que estou dizendo isso, é o jogo!

Me despeço com a reflexão e votos de que saibamos, então, reconhecer nossos privilégios. Com isso, entender que não estamos sendo recompensados por ter algo que falta à maioria das pessoas ao nosso redor.

E que ensinem The Sims nas escolas!

Este artigo foi escrito pela colaboradora Fernanda J., você pode seguí-la em seu Twitter www.twitter.com/fefatism

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Bernardo Cortez

Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.

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