Existem jogos que surpreendem quando você não espera nada deles. E existem outros, como Replaced, que já chegam cercados de expectativa. Depois de anos aparecendo em trailers, com uma proposta visual forte e alguns adiamentos no caminho, a dúvida era simples: ele conseguiria entregar tudo aquilo que prometia?
A resposta curta é sim, mas com algumas ressalvas. Antes mesmo de entrar nos detalhes, dá pra dizer que Replaced impressiona em vários aspectos. Não é um jogo perfeito, mas se ele já tinha chamado sua atenção pelo que foi mostrado até aqui, dificilmente vai decepcionar.
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Em busca de sua humanidade
Replaced segue uma base clássica do gênero cyberpunk, mas consegue construir algo mais denso do que o esperado.
A história começa com Warren, um humano trabalhando em uma megacorporação na cidade de Phoenix, acompanhado por uma inteligência artificial chamada REACH. Logo nos primeiros minutos, um evento muda completamente o rumo da narrativa: após uma explosão, o que temos não é mais Warren, mas sim a própria IA ocupando o corpo dele.
Essa inversão é o ponto central da história. Você passa a controlar uma inteligência artificial em um corpo humano, tentando entender o que aconteceu e, ao mesmo tempo, encontrar uma forma de “consertar” a situação.
A partir daí, o jogo trabalha dois pilares muito claros. O primeiro é a relação entre REACH e o próprio Warren, com essa IA tentando preservar o corpo do amigo enquanto começa, aos poucos, a entender emoções humanas. Existe um processo de humanização interessante, com questionamentos sobre ações, moralidade e identidade.



O segundo pilar é o mundo ao redor. A cidade de Phoenix segue o padrão distópico do cyberpunk, com uma megacorporação controlando tudo e uma série de problemas acontecendo nos bastidores incluindo temas mais pesados como exploração e tráfico humano.
Ao longo da jornada, você encontra personagens com histórias próprias, traumas e motivações bem construídas. Isso ajuda ainda mais a dar peso à narrativa e faz com que o mundo pareça mais vivo. Um outro ponto que soma a parte do mundo, é que o jogador é incentivado a procurar “segredos” que aumentam e muito a lore dessa realidade. Ao achar diversos objetos escondidos será possível entender melhor como o mudno chegou onde está.

Ambientação e direção artística de tirar o fôlego
Se tem um ponto em que Replaced se destaca de forma imediata, é na sua apresentação.
O jogo aposta em uma abordagem cinematográfica desde o início, utilizando formato widescreen com faixas pretas e uma direção de câmera que valoriza cada cena. A movimentação da câmera com leves ângulos, aproximações e mudanças de perspectiva, ajuda a criar uma sensação de profundidade mesmo em um gameplay 2.5D.
Visualmente, o jogo não tenta ser realista no sentido tradicional, mas compensa com estilo. A combinação de pixel art com iluminação avançada cria cenários muito marcantes, com contrastes fortes e uso inteligente de luz e sombra.
Há momentos em que a iluminação chama mais atenção do que o próprio cenário, especialmente em ambientes fechados ou com pouca luz. Tudo isso contribui para uma identidade visual muito consistente. Replaced é absurdamente lindo e artístico.
A trilha sonora acompanha bem o ritmo do jogo, se adaptando a momentos de combate, exploração ou tensão. Além disso, o uso de sons ambientes como vento, água e ruídos urbanos, ajuda a reforçar a imersão.
No conjunto, a ambientação de Replaced não apenas sustenta sua proposta, mas acaba sendo um dos grandes destaques de toda a experiência. Afinal, passar a carga emocional em Pixel art é algo acima da média.

Combate forte, mas com alguns atritos
Já o gameplay de Replaced funciona em dois pilares principais: combate e exploração.
No combate, a referência mais clara está na estrutura da série Batman: Arkham. Você alterna entre ataques, esquivas e contra-ataques, com feedback visual indicando o momento certo de reagir e do tipo de reação.
Com o avanço, novas habilidades são desbloqueadas, como tiros especiais, quebra de escudos e modos mais ofensivos. Isso adiciona variedade e mantém o combate interessante, principalmente contra grupos maiores de inimigos.
A evolução dos inimigos também acompanha esse crescimento, exigindo mais atenção e leitura dos padrões de ataque. No geral, é um sistema que funciona bem e se mantém consistente ao longo do jogo.
Já a exploração mistura plataforma, puzzles simples e momentos de stealth. Funciona, mas é aqui que começam alguns problemas.

A principal crítica está em uma mecânica específica: o gancho. Em teoria, ele serve tanto para combate quanto para movimentação, mas na prática falha em momentos importantes de travessia. Há trechos em que a conexão (de forma literal) simplesmente não acontece como deveria, gerando mortes desnecessárias e frustração.
Não é raro repetir várias vezes uma seção por conta disso, mesmo sabendo exatamente o que precisa ser feito. A frustração tem que ser superada após morrer 15 vezes ou mais no mesmo ponto.
Outro ponto que peca é o ritmo. Em alguns momentos, Replaced entra em uma sequência repetitiva de combate → plataforma → combate → plataforma, sem muita variação. Isso pode tornar certos trechos mais cansativos do que deveriam. Fica evidente que seria necessário um momento diferenciado para dar a quebra necessária a esses momentos.
Nada disso quebra a experiência, mas são detalhes que poderiam ser mais bem ajustados e polidos para não ter aquele sentimento de “gordura” em sua experiência.

Performance boa, mas não no Steam Deck
Joguei Replaced em meu PC que conta com um Ryzen 5800X, RTX 4070 Super e 32GB de RAM DDR4, onde rodou sem qualquer problema, com alta taxa de quadros e total estabilidade.
No entanto, a experiência muda bastante no Steam Deck. E isso me deixou levemente chocado, afinal ele é verificado para o portátil.
Apesar de ser compatível, o jogo não oferece opções gráficas para ajuste, o que limita bastante a otimização. A performance fica na faixa de 40–50 FPS, sem muita consistência.
Além disso, o uso do formato widescreen impacta diretamente na tela do portátil. Como já há faixas pretas na imagem, o espaço útil fica ainda menor o que prejudica a leitura visual e a imersão.
Creio que Replaced é o primeiro jogo onde não aproveitei tanto no Steam Deck. Ele é completamente jogável, mas não é prazeroso.

Conclusão
Replaced é um jogo que entrega muito do que prometeu e em alguns pontos, até mais. Posso dizer que fui legitimamente surpreendido em muitas frentes.
A história surpreende pela profundidade, a ambientação é um dos grandes destaques e o combate funciona bem dentro da proposta. Ao mesmo tempo, existem pequenas falhas que não compromete o resultado final, mas pode exigir um pouco (ou muito) de paciência em certos momentos.
No geral, Replaced vale a pena, em especial para quem já se interessou pela proposta desde os primeiros trailers.

