Análise: Directive 8020

O espaço nunca pareceu tão desconfortável

Leonardo Coimbra ·

Directive 8020 é o mais novo capítulo da franquia The Dark Pictures Anthology, da Supermassive Games, e também talvez o mais ousado da série até agora. Depois de explorar casas amaldiçoadas, cidades isoladas e criaturas misteriosas, a franquia finalmente abraça o terror espacial e isso muda completamente a forma como o suspense funciona.

Existe algo naturalmente desconfortável em histórias ambientadas no espaço. Não apenas pela sensação de isolamento, mas porque praticamente não existe rota de fuga. E Directive 8020 entende isso muito bem. Aqui, a proposta continua sendo a mesma da série: um jogo focado quase completamente em narrativa, escolhas e consequências, deixando o gameplay em segundo plano. Mas dessa vez, a ambientação e o clima conseguem elevar bastante a experiência.

E como é usual com a franquia, toda a experiência pode ser experimentada de forma solo (como joguei), via multiplayer ou então o modo “noite de cinema”.

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Quando a paranoia toma conta da nave

Falar da história de Directive 8020 é complicado justamente porque boa parte do impacto vem das descobertas. O que dá para dizer sem estragar as surpresas é que a humanidade está próxima do colapso e inicia uma missão até Tau Ceti F, um planeta com potencial de colonização.

O problema começa quando a nave é atingida por um pequeno meteorito pouco antes da chegada. A partir daí, uma substância alienígena invade a estrutura da nave e começa a contaminar absolutamente tudo: paredes, sistemas e até os próprios tripulantes.

E é justamente nesse ponto que Directive 8020 começa a funcionar muito bem.

A narrativa trabalha paranoia e desconfiança o tempo inteiro. Os personagens começam tentando entender o que está acontecendo, mas rapidamente a situação sai do controle. O jogo brinca constantemente com a perspectiva do jogador, mostrando acontecimentos futuros antes de retornar ao presente, criando dúvidas sobre quem está tentando ajudar e quem representa uma ameaça.

Isso acaba afetando diretamente suas decisões. Ao mesmo tempo em que o jogo pede confiança entre a equipe, ele também planta suspeitas o tempo inteiro. E como estamos falando de um título onde escolhas importam, qualquer detalhe pode mudar completamente a direção da história.

Os personagens também ajudam bastante no envolvimento. Cada um possui seus próprios medos, traumas e formas de reagir ao caos. Existe uma ansiedade constante dentro daquela nave, e o jogo consegue transmitir isso muito bem. A sensação de tensão vai crescendo capítulo após capítulo.

Algo que conta para a lore do jogo, é que Directive 8020 se apoia bastante em exploração. Ao vasculhar cada canto do cenário, tocar cada vídeo, descobrir as senhas para abrir arquivos secretos, você passará a entender mais desse mundo e dos personagens.

Além disso, Directive 8020 entrega um plot twist muito forte perto da reta final. É um daqueles momentos que genuinamente reposicionam boa parte do que você acreditava até então. O único porém é que, depois dessa virada, o jogo muda um pouco o tom da narrativa. Não chega a estragar a experiência, longe disso, mas perde parte daquele suspense psicológico mais contido que sustentava tão bem dois terços dele.

Claustrofobia, silêncio e corredores apertados

A ambientação talvez seja o maior acerto do jogo. Directive 8020 lembra Alien Isolation em diversos momentos, principalmente pela maneira como usa os corredores estreitos, iluminação baixa e sons ambientes para construir tensão. A nave é praticamente um personagem dentro da história.

O mais interessante é como ela evolui visualmente junto da narrativa. Conforme a substância alienígena se espalha, os ambientes começam a mudar de forma gradual. Lugares antes normais passam a parecer completamente contaminados, orgânicos e desconfortáveis.

Isso cria situações muito boas de suspense. Você entra numa sala aparentemente segura e, segundos depois, encontra tudo tomado por aquela infecção alienígena que lembra um pouco os mofados de Resident Evil 7.

Visualmente, Directive 8020 é muito competente. Os personagens possuem boas expressões faciais, os cenários têm excelente direção artística e a iluminação ajuda bastante a reforçar o clima de tensão. A trilha sonora é mais discreta, focando menos em músicas marcantes e mais em sons ambientes, alarmes, falhas elétricas e ruídos da própria nave.

A dublagem também funciona bem, reforçando o estado emocional da tripulação durante os momentos mais críticos.

O único detalhe que realmente me incomodou foi algo muito específico: os olhos de parte dos personagens. Parece estranho falar disso, mas em vários momentos eles passam uma sensação artificial demais, quase esbugalhada, destoando do restante da qualidade visual. Não chega a prejudicar a experiência, mas chama atenção justamente porque o resto do jogo é muito consistente tecnicamente.

Directive 8020: Escolhas acima de tudo

Como já era esperado, o gameplay de Directive 8020 gira quase completamente em torno de escolhas.

Você conversa, toma decisões, reage a situações e executa Quick Time Events. Essa continua sendo a base da franquia. A grande novidade aqui é a possibilidade de voltar imediatamente após uma decisão importante para alterar sua escolha sem precisar repetir grandes trechos.

Na prática, isso deixa a experiência mais dinâmica e menos frustrante. Ao mesmo tempo, existe um cuidado importante: se você decidir voltar para mudar algo mais antigo da narrativa, será necessário rejogar toda a linha daquele ponto em diante. O jogo não cria uma espécie de “timeline paralela” automática. Isso acaba deixando suas decisões ainda mais relevantes.

Os Quick Time Events funcionam bem e vão ficando mais intensos conforme a situação dentro da nave piora. Existe uma sensação constante de urgência, principalmente perto do final. O problema aparece justamente quando Directive 8020 tenta expandir um pouco além disso.

O jogo introduz mecânicas de furtividade (ficando mais intenso na reta final) que sinceramente não funcionaram tão bem comigo. Não porque a ideia seja ruim, mas porque tudo é simples demais. Os inimigos têm pouca percepção, os caminhos são muito diretos e praticamente não existe necessidade de improvisar ou criar estratégias.

Em vez de aumentar a tensão, essas partes acabam ficando fáceis demais. Em alguns momentos eu literalmente estava atravessando áreas inteiras correndo sem grande dificuldade. Parece uma mecânica colocada mais para variar o ritmo do que algo realmente desenvolvido para aprofundar o terror.

E considerando o potencial dessa ambientação espacial, dava para explorar muito mais essa sensação de perseguição e sobrevivência.

O melhor capítulo da antologia?

Directive 8020 foi uma surpresa extremamente positiva para mim. Talvez muito disso venha do cenário escolhido. O terror espacial conversa muito bem com a proposta da Supermassive Games, porque amplifica paranoia, isolamento e ansiedade de uma forma muito mais intensa do que outros ambientes da franquia.

A história prende, os personagens funcionam, a ambientação é excelente e existe um cuidado muito grande na construção da tensão. Mesmo com algumas mecânicas mais fracas no gameplay e uma reta final que muda um pouco o tom da narrativa, o saldo é extremamente positivo.

E honestamente? Acho que existe uma boa chance de Directive 8020 ser o melhor jogo de toda a The Dark Pictures Anthology até agora.

Para quem gosta de jogos focados em narrativa, escolhas e suspense psicológico, é uma recomendação muito fácil.

E claro, você talvez tenha notado uma ausencia notável aqui, o sempre presente Curador. Mudando o que a franquia sempre trouxe, agora o Curador não está presente de forma explícita como usualmente está. Isso não afeta a experiência em momento algum, mas traz uma certa estranheza para o fã da série. Uma espécie de vazio.

De qualquer modo, sem entrar em spoilers, posso afirmar que o jogador deligente achará algo sobre ele ao longo de sua aventura….. Isso, se sobreviver até lá.

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90 Nota

Directive 8020

Imperdível

Directive 8020 aposta no terror espacial para entregar uma das experiências mais fortes da franquia The Dark Pictures Anthology. Com uma história cheia de tensão, paranoia e boas reviravoltas, o jogo se destaca pela ambientação claustrofóbica e pela evolução constante da nave e dos personagens.

Desenvolvedor Supermassive Games
Publicadora Supermassive Games
Lançamento 12/05/2026
Plataformas Xbox Series X|S, PC (Microsoft Windows), PlayStation 5
Plataforma jogada PS5
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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