Truxton Extreme é, ao mesmo tempo, uma continuação e uma espécie de releitura de um clássico dos shoot ‘em ups. O Truxton original chegou ao Mega Drive em 1988 e se tornou um dos nomes cultuados do gênero, conhecido principalmente por sua ação rápida e pelo nível de dificuldade elevado. Quase quatro décadas depois, a Tatsujin resgata essa fórmula em um jogo completamente desenvolvido em 3D.
A ligação com o original vai além do nome. Truxton Extreme é comandado por Masahiro Yuge, que trabalhou no jogo de 1988 e também foi responsável pela composição de sua trilha sonora. Anos depois, Yuge fundou a Tatsujin, empresa responsável pelo novo título. E há ainda uma curiosidade: Tatsujin era justamente o nome usado para Truxton no Japão.
Isso ajuda a explicar a proposta de Truxton Extreme: em vez de simplesmente reproduzir um jogo dos anos 80, a equipe tenta transportar aquela experiência para os dias atuais sem abandonar aquilo que fazia parte de sua identidade. A pergunta, portanto, é se essa fórmula ainda funciona depois de tantas décadas.
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Uma história que não atrapalha o que realmente importa
Apesar de a história nunca ser o elemento principal de um shmup, Truxton Extreme surpreende ao dar mais atenção à narrativa do que seria esperado para o gênero.
A humanidade está novamente ameaçada pela força alienígena Gerâum, e cabe a três pilotos de elite enfrentar a ameaça: Ash, Bergamot e Cyrilla. Conhecidos como Tatsujins, eles abandonaram seus corpos humanos e se transformaram em ciborgues para poder lutar pela sobrevivência da humanidade.
Os três personagens percorrem as mesmas fases, mas isso não significa que você precise repetir toda a campanha três vezes para simplesmente terminar Truxton Extreme. Ao avançar com um personagem, novas partes da história dos outros são desbloqueadas. Essas passagens são apresentadas em formato de quadrinhos, com uma produção visual de boa qualidade e até opção de reprodução automática.
A narrativa serve principalmente para contextualizar os personagens, suas motivações e a situação da humanidade diante da ameaça alienígena. Não é uma história que vai sustentar a experiência por conta própria, mas cumpre bem seu papel e, principalmente, não interfere no ritmo do gameplay.
Para um gênero em que normalmente a história é quase um detalhe, é uma adição bem-vinda.

Do 16-bits ao 3D
Uma das mudanças mais evidentes em Truxton Extreme está na apresentação. O original tinha toda a identidade visual dos jogos de 16-bits, enquanto o novo título reconstrói seus cenários e inimigos em 3D.
Ainda assim, a equipe preserva a característica progressão vertical da série. A diferença é que agora ela ocupa a tela inteira, e a transição funciona melhor do que poderia parecer inicialmente.
Os gráficos não tentam impressionar pela complexidade técnica. Os modelos são relativamente simples, mas possuem boas texturas e, principalmente, são fáceis de distinguir durante a ação. Isso é fundamental em um shmup, onde a tela pode rapidamente ficar cheia de inimigos, projéteis e efeitos.
A profundidade dos cenários também ajuda bastante. Seja no espaço, passando por asteroides, ou em ambientes mais próximos de uma floresta, bases e mais, existe uma boa diferenciação entre os elementos do cenário e aquilo que realmente representa uma ameaça. Você consegue entender onde está sua nave, onde estão os inimigos e o que está acontecendo ao redor sem que o visual se torne uma distração.
É uma mudança importante em relação ao original, mas Truxton Extreme não parece ter esquecido que, nesse gênero, clareza visual é mais importante do que quantidade de detalhes.
A trilha sonora segue uma direção igualmente importante para a identidade do jogo. Com Masahiro Yuge novamente envolvido, agora sob a influência de décadas de evolução do gênero, as músicas têm uma pegada eletrônica próxima do synthwave, com faixas agitadas que acompanham bem o ritmo da ação.
Há também mudanças de música em momentos importantes, como a chegada aos chefes, preservando alguns daqueles elementos tradicionais dos shmups. São detalhes que ajudam a fazer Truxton Extreme parecer uma evolução do clássico, e não simplesmente um título que utiliza seu nome.

Cinco armas, cinco maneiras de jogar
É no gameplay que Truxton Extreme realmente mostra por que a fórmula continua funcionando. Quem conhece o jogo original vai encontrar diversas familiaridades. Alguns tipos de tiro, inimigos e até determinadas situações das fases remetem diretamente ao título de 1988, mas tudo foi reconstruído para o novo jogo.
A principal mecânica está nas cinco armas disponíveis. A nave muda de cor de acordo com o tiro equipado, e cada uma delas altera consideravelmente a maneira de enfrentar os inimigos.
O vermelho é o disparo mais tradicional, projetado para frente e com uma abertura que cobre uma área maior. O verde concentra o ataque em uma linha reta, oferecendo mais foco contra alvos específicos. O azul dispara diversos feixes pela tela que podem se prender aos inimigos quando passam por eles.
Já o roxo dispara em todas as direções próximas da nave, funcionando quase como um campo de força ofensivo. Por fim, o branco possui projéteis que perseguem os adversários, acompanhando seus movimentos pela tela.
Este último acabou sendo meu favorito justamente pela praticidade. É muito mais confortável poder se preocupar menos com a posição exata de cada inimigo, principalmente quando a tela começa a ficar cheia de ameaças.


Mas Truxton Extreme não deixa você simplesmente escolher uma arma e permanecer com ela durante toda a campanha. Em determinados momentos, a própria disposição dos inimigos faz com que outras opções sejam mais eficientes. Você acaba alternando constantemente entre os tiros, e aprender quando utilizar cada um deles passa a fazer parte da estratégia.
Além disso, existem bombas capazes de limpar parte dos perigos da tela, melhorias de poder e upgrades de velocidade. E essa última opção traz uma pequena mudança que faz bastante diferença em relação ao clássico.
Você pode aumentar a velocidade da nave em diferentes níveis e alternar entre eles durante a partida. Parece algo simples, mas muda completamente a forma de enfrentar determinadas situações. Eu mesmo comecei jogando com uma velocidade mais alta e percebi que estava morrendo justamente por não conseguir controlar a nave adequadamente. Quando passei a reduzir a velocidade em determinados trechos, minha performance melhorou consideravelmente.
É um daqueles sistemas que parecem pequenos no papel, mas fazem diferença quando você começa a dominar o jogo.

Difícil, mas não sem propósito
Naturalmente, não dá para falar de Truxton Extreme sem falar de dificuldade. O jogo é difícil, muito difícil.
A tela rapidamente se transforma em um festival de projéteis, com inimigos surgindo de diferentes posições e padrões que exigem atenção constante. Em determinados momentos existe uma dose de sorte envolvida, mas quanto mais você joga, mais percebe que existe um padrão por trás daquele caos.
E é justamente aí que está uma das melhores características do gênero: Truxton Extreme constantemente dá a sensação de que você consegue ir um pouco mais longe na próxima tentativa.
Você morre, entende onde errou, reconhece um padrão, muda sua abordagem e tenta novamente. Aos poucos, aquilo que parecia impossível começa a ficar administrável. A dificuldade deixa de ser apenas uma barreira e passa a funcionar como parte do sistema de progressão do próprio jogador.
Não é um jogo que tenta facilitar sua vida. Mas também não parece estar dificultando as coisas simplesmente para punir você.

Conteúdo para quem quer dominar o jogo
Além da campanha principal, Truxton Extreme oferece uma quantidade razoável de modos e ferramentas para um shmup.
O modo história é a principal porta de entrada, permitindo conhecer os personagens e desbloquear suas respectivas histórias. Há também o modo arcade, mais próximo da experiência tradicional, focado diretamente em avançar pelas fases e obter a maior pontuação possível.
Para quem está começando, existe ainda um modo em que você pode continuar mesmo depois de sofrer dano, funcionando como uma espécie de espaço para aprender os padrões, experimentar armas e entender melhor as fases sem a pressão de uma partida tradicional.
Também estão disponíveis modos de treinamento e desafios, além de opções para visualizar modelos das naves e dos inimigos. E, naturalmente, existe o sistema de pontuação e ranking para quem quiser transformar o jogo em uma disputa pela melhor marca.
Esse conjunto de opções faz sentido porque um shmup não é necessariamente um jogo que você termina e deixa de lado. Depois que você conhece as fases, o objetivo passa a ser dominar seus padrões, melhorar sua pontuação e chegar cada vez mais longe.

Conclusão
Truxton Extreme faz exatamente aquilo que precisava fazer: pega uma fórmula criada há quase quatro décadas e consegue adaptá-la para os dias atuais sem perder sua identidade.
A transformação para o 3D funciona, os cenários são claros durante a ação, a trilha sonora acompanha bem o ritmo e o gameplay mantém a essência do original enquanto adiciona sistemas interessantes, como o controle de velocidade e a variedade de armas.
A história também é uma surpresa positiva. Ela não é o motivo pelo qual você vai jogar Truxton Extreme, mas acrescenta contexto, dá mais personalidade aos protagonistas e oferece um incentivo adicional para continuar explorando a campanha.
O maior obstáculo continua sendo o mesmo de décadas atrás: a dificuldade. Truxton Extreme não é um jogo para quem procura uma experiência tranquila ou simplesmente quer terminar uma campanha sem grandes complicações. Ele exige prática, atenção e disposição para repetir as mesmas situações até aprender seus padrões.
Mas, para quem gosta de shoot ‘em ups, especialmente para quem aprecia a ideia de dominar um jogo aos poucos e perseguir pontuações cada vez melhores, existe aqui muito conteúdo para aproveitar.
Truxton Extreme não tenta reinventar o gênero. E talvez nem precisasse. Ele entende muito bem o que fez o original funcionar e consegue transportar essa fórmula para o presente de uma maneira que parece natural.
