Em 1996, o mercado de jogos de luta de Neo Geo sofria de um “problema”: excesso de genialidade. Entre os lançamentos anuais de The King of Fighters, o peso histórico de Samurai Shodown e a técnica de Fatal Fury, novas propriedades intelectuais nasciam quase condenadas a serem devoradas por seus irmãos mais velhos. Foi nesse cenário implacável que a ADK entregou sua última e mais refinada obra-prima antes de fechar as portas: Ninja Master’s: Haō Ninpō Chō. Após décadas como uma relíquia obscura e de difícil acesso, o game finalmente recebe o tratamento que merece em um port definitivo para PC, cortesia da Code Mystics sob o selo NEOGEO Premium Selection Series. E sim, aquele apóstrofo bizarro no título continua lá para incomodar os puristas da gramática, mas o que está dentro do código compensa qualquer heresia linguística.
O Equilíbrio entre o Aço e o Punho
A grande assinatura de Ninja Master’s, e o que o diferenciava de qualquer outra coisa da SNK na época, é a flexibilidade total de seu combate. Ao pressionar dois botões simultaneamente, seu personagem desembainha ou guarda sua arma instantaneamente no meio da luta.
A genialidade do sistema está no equilíbrio: lutar desarmado não é uma desvantagem punitiva. Os socos e chutes limpos entregam uma velocidade e capacidade de resposta que lembram o ritmo ágil de King of Fighters. Já puxar a lâmina altera completamente o conjunto de movimentos, priorizando o alcance, o controle de espaço e cortes devastadores, sem nunca perder a fluidez mecânica. O que funcionar quase como uma evolução à alguns títulos de Samurai Shodown. Para apimentar a dinâmica, as armas introduzem um fator de risco alto: elas podem ser arremessadas para ataques surpresa à distância, mas também podem ser desarmadas pelo oponente, forçando uma mudança de estratégia instantânea.

A ADK também ousou ao flertar com uma mecânica que era febre no ocidente em jogos como Killer Instinct e Tekken, mas rara nos sistemas da SNK: os dial-a-combos. Em vez de exigir o preciosismo cirúrgico de links frame a frame, o game permite que você aperte os botões em uma sequência predefinida para ver combos de até 20 acertos se desenrolarem na tela. É um sistema que recompensa o conhecimento de repertório e entrega uma satisfação imediata ao jogador.

Sombras de um Japão Devastado
Ao contrário da mistura caótica de eras de World Heroes, Ninja Master’s foca em uma estética coesa e purista. O elenco de 12 lutadores transborda personalidade dentro da temática do Japão Feudal devastado pela guerra. Temos o clássico ninja Sasuke em busca de vingança pela morte do pai, a órfã Natsume determinada a assassinar o tirano Nobunaga Oda (o temível chefe final do jogo), além de uma seleção afiada de kunoichis, monges e exorcistas.
Os cenários são verdadeiras pinturas vivas do Neo Geo, cheios de pequenos detalhes em movimento que capturam a atmosfera mística do período. Tudo isso é amarrado por uma trilha sonora instrumental que abusa de instrumentos tradicionais japoneses, ditando o tom urgente e solene dos combates. O clímax visual fica por conta do flash monocromático que toma a tela no momento do golpe final, um toque dramático que transforma cada vitória em um evento cinematográfico.


O Toque Moderno da Code Mystics
Trazer um clássico de 1996 para a Steam exige mais do que uma emulação crua, e é aqui que o trabalho da Code Mystics brilha. O netcode baseado em rollback transforma a experiência online, garantindo partidas fluidas e sem o temido input lag, essencial para um jogo que depende de combos em sequência rápida.
Além disso, a inclusão de um Modo Treino (Practice Mode) robusto é uma adição de valor inestimável, permitindo que veteranos e novatos destrinchem os tempos de animação e as sequências de dial-a-combos sem passar raiva. Para os entusiastas da história dos videogames, o pacote ainda entrega uma galeria recheada de artes conceituais e oficiais da época da ADK.
Em termos de performance pura, o port é impecável. Os sprites originais e a pixel art suntuosa rodam de forma cravada, sem quedas de frames ou bugs visuais, respeitando o material original enquanto rodam perfeitamente nos setups modernos de PC.




O Peso da Idade no Conteúdo
Por se tratar de um produto fiel de sua época, Ninja Master’s carrega as limitações estruturais dos fliperamas dos anos 90. O conteúdo single-player é compreensivelmente enxuto, resumindo-se ao clássico modo Arcade e ao Modo Treino. Se você não tiver amigos que compartilhem do mesmo gosto por jogos de luta retrô ou não se importar em enfrentar lobbies online que, por ser um título de nicho, tendem a ser mais vazios, o fator replay solo pode se esgotar rapidamente após derrotar Nobunaga algumas vezes.


Veredito
Ninja Master’s não é apenas uma curiosidade histórica; é o testamento do ápice criativo de um estúdio que finalmente tinha entendido todas as nuances do gênero antes de se despedir dele. O trabalho de preservação neste port para a Steam faz dele a versão definitiva de uma joia escondida. Ele consegue a proeza de parecer uma fusão orgânica de Samurai Shodown com The King of Fighters, sem perder a própria identidade no processo. Pelo seu preço acessível, mesmo com o modo solo enxuto, é um investimento obrigatório para qualquer amante da era de ouro dos fighting games 2D.
