Originais 8 min de leitura

Clair Obscur: Expedition 33 – A arte do Chiaroscuro como pilar de um jogo revolucionário

Bernardo Cortez ·

Uma semana após seu lançamento, Clair Obscur: Expedition 33 já se estabeleceu como um dos títulos mais marcantes de 2025. Nossa análise já o destacou como um forte candidato a Jogo do Ano, e parte fundamental dessa aclamação reside não apenas em sua jogabilidade refinada ou narrativa impactante, mas em sua profunda e intencional ligação com a história da arte. Falamos da técnica do chiaroscuro.

Aqui, vamos explicar como essa dança secular de luz e sombra não é apenas um adorno estético em Clair Obscur: Expedition 33, mas um pilar que sustenta sua atmosfera opressora, suas mecânicas de combate reativas e seus temas existenciais, contribuindo decisivamente para a obra-prima que chegou às nossas mãos. Vamos desvendar como a Sandfall Interactive utilizou um princípio artístico centenário para forjar uma experiência tão moderna e inesquecível.

Uma pincelada do destino: O mundo sombrio de Clair Obscur: Expedition 33

Como vocês que já jogaram sabem, Clair Obscur nos joga em um mundo assombrado pelo Artífice. A cada ano, essa entidade desperta e pinta um número em seu monólito. Todos que atingem essa idade específica naquele ano… simplesmente desaparecem, virando fumaça. A cada ano, o número diminui. A trama que vivenciamos começa quando a Artífice está prestes a pintar “33”, e a humanidade lança a desesperada Expedição 33 para tentar detê-la. É um cenário de beleza melancólica, inspirado na França da Belle Époque, mas perpetuamente assombrado pela aniquilação artística iminente.

Siga no TelegramReceba as principais notícias direto no seu Telegram.
Entrar no canal

O que diabos é Chiaroscuro? (A conexão artística)

Agora, vamos conectar os pontos com a arte. Chiaroscuro é um termo italiano que significa, literalmente, “claro-escuro”, uma técnica que explodiu durante o Renascimento e o Barroco, entre os séculos XV e XVII aproximadamente. Essencialmente, trata-se do uso de contrastes FORTES entre áreas de luz e sombra numa obra de arte. Os artistas empregavam essa técnica não apenas por estilo, mas para alcançar efeitos poderosos: criar um senso de drama intenso, dar volume e uma ilusão tridimensional às figuras pintadas, guiar o olhar do espectador diretamente para os pontos cruciais da cena e evocar emoções profundas, que podiam variar da serenidade divina ao terror mais visceral.

Imagine pegar uma lanterna em um quarto escuro e iluminar apenas um rosto ou objeto; o contraste dramático, as sombras profundas engolindo o resto, isso captura a essência do chiaroscuro. Mestres como Leonardo da Vinci exploraram-no com transições mais suaves, associadas à sua famosa técnica de sfumato, mas foi Caravaggio quem radicalizou o método, mergulhando grandes partes de suas telas em escuridão e usando feixes de luz quase teatrais para destacar a ação principal, uma forma extrema que ficou conhecida como Tenebrismo. Mais tarde, Rembrandt também usou a interação de luz e sombra com maestria para explorar a psicologia e a emoção complexa de seus retratados.

Como Clair Obscur: Expedition 33 pinta com luz e sombra?

Okay, legal a aula de história, mas e o jogo? A conexão é VISCERAL e se manifesta de várias formas interligadas. Primeiramente, no visual e na atmosfera. O jogo é descrito como “visualmente espetacular”, com “ambientes de cortar a respiração”. Contudo, não se trata apenas de beleza superficial. Essa estética inspirada na Belle Époque é constantemente banhada em luz e sombra dramáticas, criando uma atmosfera própria. Testemunhamos “momentos melancólicos e sombrios”, que são equilibrados pela esperança perseverante dos personagens. A luz serve para guiar o jogador através de cenários ricos, definir espaços surreais como as “Águas Voadoras”, e por vezes a paleta de cores se reduz drasticamente, com momentos inteiros renderizados em escala de cinza para intensificar a tensão – uma aplicação direta dos princípios do chiaroscuro. Essa justaposição da beleza otimista da Belle Époque com a escuridão iminente e a iluminação dramática amplifica a sensação de tragédia e perda no mundo do jogo.

Mas essa interação de luz e sombra vai além da estética, integrando-se diretamente à jogabilidade. Clair Obscur mistura combate por turnos com ações em tempo real, exigindo que o jogador execute esquivas, aparadas (parry) e contra-ataques no momento preciso. A chave para o sucesso está em prestar atenção às “pistas audiovisuais”. A necessidade de ler padrões de ataque rapidamente, uma característica que levou a comparações com a intensidade de Sekiro, significa que a clareza visual – a luz – no meio da potencial obscuridade ou confusão visual – a sombra – do campo de batalha é fundamental para a sobrevivência. A luz destaca a ameaça iminente, enquanto a sombra pode ocultá-la ou criar distrações. Assim, o chiaroscuro se transforma de um princípio artístico em uma mecânica de jogo essencial: ver claramente é, literalmente, parte da luta.

Finalmente, até mesmo os personagens são esculpidos por essa luz e sombra. Figuras como Gustave, o engenheiro de 32 anos com seu tempo se esgotando, a jovem e enigmática Maelle, ou a temível Artífice, ganham profundidade não apenas por seus trajes ou diálogos, mas pela forma como a iluminação escultural realça suas expressões faciais, posturas e os fardos emocionais que carregam, permitindo uma conexão mais profunda com seus conflitos internos, de forma semelhante a como Rembrandt usava a luz para revelar a alma em seus retratos.

Temas que ecoam na escuridão

Essa profunda conexão entre o jogo e a arte se estende aos temas centrais da narrativa. A própria história de Clair Obscur é uma poderosa manifestação da luta fundamental entre Luz e Escuridão. A jornada da Expedição 33 contra a Artífice representa a batalha da vida, esperança e conhecimento contra a morte iminente, o desespero e o desconhecido. O chiaroscuro, com sua essência baseada nesse contraste primordial, torna-se a ferramenta visual perfeita para expressar esse conflito.

A premissa do jogo força uma confrontação direta com a Vida, a Morte e a Mortalidade, temas existenciais que o chiaroscuro, especialmente em sua fase barroca, frequentemente explorou em cenas de martírio ou naturezas-mortas simbólicas. Clair Obscur: Expedition 33 também representa uma busca por Conhecimento contra a Ignorância, aventurando-se na escuridão para desvendar os mistérios da Artífice, de forma análoga a como o chiaroscuro ilumina seletivamente, revelando alguns aspectos enquanto oculta outros.

Por fim, a figura da Artífice levanta questões sobre o poder e o perigo da própria arte, usando sua criação para controlar e destruir. Isso espelha como o chiaroscuro, enquanto técnica, pode ser usado não apenas para representar, mas também para manipular a percepção e a emoção, mostrando que a arte, assim como a luz e a sombra, possui um poder ambíguo.

Por que essa conexão eleva o jogo?

A escolha deliberada do nome e da estética chiaroscuro pela Sandfall Interactive, como argumentamos, não foi acidental. É uma declaração de intenções que se prova fundamental para o sucesso do jogo. Eles pegaram influências reconhecíveis de JRPGs clássicos e modernos (como Final Fantasy e Persona) e a tensão de combate de jogos como Sekiro, mas fundiram tudo isso com uma linguagem visual poderosa e carregada de história artística.

Essa mistura da ambientação única da Belle Époque com o drama claro-escuro cria algo que se sente, ao mesmo tempo, reverente à tradição e incrivelmente original. Evita os clichês visuais da fantasia medieval e oferece uma experiência que transcende o mero entretenimento, tornando-se artisticamente ressonante e um dos motivos pelos quais o consideramos tão especial.

A luz no fim do túnel (e da expedição)

Clair Obscur: Expedition 33 se firma, portanto, como muito mais do que apenas um dos melhores RPGs do ano. É uma ponte fascinante entre séculos de história da arte e a interatividade dos videogames modernos. Ao abraçar o chiaroscuro de forma tão integral, não somente no nome, o jogo não só constrói um visual impactante e mecânicas inteligentes, mas também aprofunda seus temas universais de vida, morte e esperança contra a adversidade.

É um lembrete poderoso de que os jogos podem ser, e frequentemente são, profundamente artísticos, dialogando com o passado para criar futuros digitais complexos e emocionantes. A Sandfall Interactive não apenas entregou um jogo excelente, mas uma obra que ilumina as possibilidades da arte nos videogames.

NewsletterReceba as últimas notícias de games no seu email.

Bernardo Cortez

Formado em Relações Internacionais, Bernardo aproveitou o dom de escrever para algo útil. Músico, viajante, cronista e amante de qualquer coisa que seja relacionada a jogos, seu sonho é ser jornalista na área. Tem um carinho especial por jogos que tragam o melhor de todas as formas de arte que os englobam.

Deixe um comentário