Análise: Screamer

Leonardo Coimbra ·

Screamer chega como um projeto curioso da Milestone, publicado pela Arc System Works, chamando atenção logo de cara pelo visual em cel shading com forte inspiração em anime. A proposta mistura corridas arcade com um sistema focado em habilidades como turbo, ataques, destruição e muito drift.

A ideia de Screamer é clara ao não ser apenas mais um jogo de corrida tradicional. A questão que fica é se todas essas mecânicas funcionam bem juntas na prática.

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Múltiplas histórias e motivações

Diferente do que normalmente se espera do gênero, Screamer tenta construir uma base narrativa mais elaborada. O jogo gira em torno de um torneio ilegal chamado “Screamer”, financiado pelo misterioso Sr. A, com uma premiação bilionária que naturalmente atrai competidores com diferentes motivações.

Um ponto interessante é a estrutura em equipes onde temos grupos de três personagens, cada um com seus próprios objetivos. Tem gente buscando vingança, outros tentando provar valor para a família, personagens lidando com traumas ou simplesmente tentando pagar dívidas. Esse conjunto de motivações dá mais contexto às corridas e cria um pano de fundo incomum para o gênero.

A narrativa se apoia em animações bem produzidas, com uma direção visual que lembra bastante um anime moderno. Já os diálogos seguem um formato mais estático, quase como visual novel, mas funcionam bem e são bem dublados. O elemento mais curioso dentro desse universo é a tecnologia ECHO, que permite que os participantes voltem à vida. Isso muda completamente o peso das corridas e justifica o nível de agressividade nas disputas.

No fim, para um jogo de corrida arcade, o esforço narrativo é acima da média e acaba sendo um diferencial.

Parte técnica impressiona

A parte visual de Screamer é um dos seus maiores acertos. O uso de cel shading cria uma identidade forte e consistente, com uma estética que mistura um futuro distópico com uma pegada neon bem marcante, lembrando bastante obras como Blade Runner.

As pistas variam entre cenários urbanos iluminados por neon e áreas mais áridas e destruídas, mantendo uma boa coerência com a proposta do jogo. A sensação de velocidade é bem transmitida, com efeitos visuais agressivos e bastante informação na tela. Por óbvio, as pistas noturnas tem um destaque visual mais marcante pelas ruas iluminadas, letreiros e os designs dos carros.

Na parte sonora, o jogo segue essa identidade futurista com uma trilha em synthwave, com batidas rápidas que combinam bem com o ritmo das corridas. Os efeitos dos carros e colisões cumprem seu papel sem grande destaque.

Um detalhe interessante, que acaba sendo um grande diferencial, está nos diálogos durante as corridas e interações. Existe uma justificativa narrativa para que personagens de diferentes nacionalidades falem suas línguas nativas, com um sistema de tradução em tempo real. Isso cria uma mistura de idiomas (inglês, japonês, francês, alemão, italiano) que dá muita personalidade ao mundo e foge do padrão.

Um jogo de corrida diferente de tudo que já viu

E é em seu gameplay que que Screamer se diferencia, tanto para o bem como par ao mal.

O jogo oferece uma boa variedade de modos com uma campanha relativamente grande, corridas rápidas, torneios, desafios de pontuação global, batalhas por destruição e outros formatos derivados do modo história. Há também um sistema de progressão com desbloqueio de personagens, cerca de 15 carros e muitas opções de customização visual.

Até esse ponto, tudo funciona como esperado. O problema começa no núcleo da jogabilidade.

Screamer não segue o padrão tradicional de jogos de corrida. O controle do carro é dividido de uma forma pouco convencional onde o analógico esquerdo direciona o veículo, enquanto o direito é responsável pelo drift. Isso exige uma adaptação significativa, já que o carro não responde de forma natural apenas com direção e aceleração.

O resultado é uma curva de aprendizado alta. Não é só questão de prática, é uma mudança de lógica. Você precisa coordenar drift, direção, aceleração e correções constantes ao mesmo tempo. E como as pistas são relativamente estreitas e punitivas, erros são frequentes e custam caro. Muitas vezes, caro demais.

Para equilibrar isso, Screamer adiciona várias mecânicas:

  • Turbo carregado manualmente, com bônus de execução perfeita
  • Escudo para evitar dano temporário dando invencibilidade
  • Ataques que destroem adversários
  • Overdrive, que funciona como um “ultimate” temporário, mas onde após seu uso, você ficará completamente vulnerável.

Além disso, há um sistema interessante de troca de marchas com feedback tátil no controle, que adiciona um pequeno boost quando executado corretamente. Essa troca de marcha é apenas para subir a mesma e não algo técnico como um cambo manual completo.

Tudo isso cria uma camada estratégica forte. Em vez de simplesmente correr melhor, o jogador precisa gerenciar recursos e escolher o momento certo de agir, especialmente nas voltas finais. Em alguns momentos, a corrida parece mais um jogo de estratégia em tempo real do que um jogo de direção.

E toda essa complexidade tem dois lados bem claros. Quando funciona, é satisfatório vencer no último segundo usando todas as ferramentas disponíveis como se tivesse feito uma jogada genial em uma partida de xadrez. Mas também pode gerar frustração. A IA é agressiva e, muitas vezes, parece ignorar o desempenho do jogador. Mesmo fazendo uma corrida limpa, é comum perder posições de forma abrupta, criando um efeito de “vai e volta” constante.

Além disso, o controle do carro em si não passa tanta precisão quanto poderia. Há uma sensação de falta de polimento que impacta diretamente a experiência.

Outro ponto questionável é o mapeamento de botões. Muitas ações importantes ficam concentradas nos mesmos botões superiores, exigindo combinações de pressionar e segurar, enquanto outros botões do controle não são utilizados. Isso torna tudo menos intuitivo do que deveria.

Screamer acerta ou erra na execução?

Screamer é um jogo que claramente tenta fazer algo diferente e isso por si só já merece reconhecimento. Ele acerta na identidade visual, constrói uma ambientação interessante e traz uma proposta de gameplay que foge do padrão.

Ao mesmo tempo, essa busca por algo único cobra um preço. O controle pouco convencional, a necessidade de adaptação constante e alguns problemas de equilíbrio tornam a experiência inconsistente em vários momentos.

No fim, é um jogo que funciona melhor para quem está disposto a entender suas regras e aceitar que ele não é um “jogo de corrida tradicional”. Existe uma boa base aqui, com ideias interessantes e momentos realmente satisfatórios, mas também fica evidente que faltou um polimento maior no núcleo da jogabilidade.

O saldo é positivo, mas com ressalvas. Para quem busca algo diferente dentro do gênero, vale a pena. Para quem quer uma experiência mais direta e refinada de corrida, pode acabar frustrando.

Essa análise de Screamer segue nossas diretrizes internas. Clique aqui e confira nosso processo de avaliação.

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80 Nota

Milestone S.r.l.

Ótimo

Screamer aposta em uma proposta diferente dentro dos jogos de corrida, combinando estética em cel shading inspirada em anime com mecânicas que vão além da direção tradicional. A ambientação futurista e a narrativa com múltiplos personagens ajudam a dar contexto às corridas, algo pouco comum no gênero. Por outro lado, o jogo apresenta uma curva de aprendizado elevada devido ao seu sistema de controle pouco convencional, além de problemas de equilíbrio e polimento nas corridas. A experiência acaba sendo mais estratégica do que técnica, o que pode agradar quem busca algo diferente, mas também gerar frustração em quem espera uma condução mais precisa e intuitiva. No geral, é um jogo interessante e com identidade própria, mas que não atinge todo o seu potencial por limitações na execução do seu gameplay.

Desenvolvedor Milestone S.r.l.
Publicadora Milestone S.r.l.
Lançamento 26/03/2026
Plataforma jogada PS5
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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