Desenvolvido pela Clover Bite e publicado pela Kwalee, GRIME II carrega o peso de suceder um título amplamente aclamado pela crítica. Devo admitir, no entanto, que esta é minha primeira incursão na franquia. Por isso, esta análise não se baseará em comparações com o antecessor, o que não me impede de buscar o título original caso esta experiência se mostre positiva.
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Uma narrativa onírica que instiga a curiosidade
A trama de GRIME II mergulha o jogador em um cenário abstrato e intrigante. A jornada tem início com o Criador das Marés, uma entidade que revela um universo habitado por seres desprovidos de consciência. Ao sermos reconhecidos como uma exceção pensante, somos lançados em um estado de confusão existencial, sob a promessa de que as respostas que buscamos virão com o tempo.
Após esse despertar em nossa “casa” (uma estrutura que remete visualmente a um ovo), a aventura propriamente dita começa. Um ponto que merece destaque imediato é o tutorial: embora o jogo apresente sistemas densos e mecânicas profundas, essa introdução é executada com maestria, sendo fundamental para que o jogador compreenda os pilares do gameplay sem se sentir perdido.
A premissa é inegavelmente original e desperta um desejo genuíno de desvendar a natureza do protagonista e o propósito daquele mundo. No entanto, o roteiro opta por uma abordagem extremamente metafórica. As explicações são envoltas em uma camada “poética” que exige um esforço considerável de interpretação por parte do jogador. Embora isso não seja um defeito por si só, acaba criando uma barreira para quem prefere uma progressão narrativa mais clara e direta.

O belo, o grotesco e o surreal
No quesito visual, GRIME II impressiona. O trabalho técnico nas animações e nos efeitos é de altíssimo nível, entregando um mundo que é, ao mesmo tempo, belo e repulsivo. Contudo, a direção de arte abraça o surrealismo de forma radical: mãos que brotam de cenários e criaturas cujas formas desafiam a lógica biológica são constantes.
Para ilustrar esse estilo quase onírico (pequenos spoilers a seguir), o primeiro grande desafio que encontrei foi uma mão colossal, um combate visualmente impactante, embora mecanicamente acessível. Em contrapartida, enfrentei uma mulher confinada em uma caixa que se provou um desafio brutal, mas cuja presença naquele contexto parecia não seguir qualquer lógica aparente.
É importante ressaltar que essas batalhas são extremamente divertidas e bem projetadas, mas para um novato na franquia, a coesão desse universo pode parecer um tanto quanto “estranha” inicialmente. Talvez veteranos do primeiro jogo encontrem conexões que me escaparam, mas o fato é que a lógica por trás desse design grotesco permanece um mistério nas horas iniciais.


Desafiador, mas recompensador
Se a ambientação é complexa, a jogabilidade segue o mesmo caminho, mas com um retorno extremamente satisfatório. Sem o parâmetro do primeiro título, posso afirmar que a experiência em GRIME II é de altíssimo nível. O jogo se enquadra no gênero soulslike, mas com uma abordagem mais generosa: a dificuldade está presente e os inimigos ressurgem após sua derrota, mas você não perde seus recursos acumulados ao morrer. Isso torna o desafio instigante sem ser punitivo ao extremo, um alento para quem, como eu, costuma ter ressalvas com o gênero.
A profundidade do combate vai muito além do básico de pular e esquivar. O grande diferencial reside no sistema de rebate (parry). Ao executá-lo com precisão em certos inimigos, é possível absorvê-los para incorporar suas habilidades únicas ao seu arsenal. Além disso, o jogo introduz ferramentas de movimentação, como uma espécie de garra ou substância viscosa, que são essenciais para explorar novas áreas do mapa (o clássico estilo metroidvania).
No entanto, confesso que o ponto que mais me cativou foi a vertente RPG. O sistema de progressão é robusto, permitindo evoluir atributos, equipar itens e criar builds (construções de personagem) totalmente personalizadas. Essa liberdade de customização é, sem dúvida, a parte mais divertida do jogo. Ela não só enriquece a experiência imediata, como também gera um excelente fator replay, deixando aquela vontade de reiniciar a jornada apenas para testar caminhos e combinações diferentes.

Atmosfera sonora: Entre o épico e o funcional
A sonoplastia de GRIME II apresenta um contraste curioso. O tema inicial, composto por arranjos que remetem a um coro, é excelente e estabelece com maestria o clima macabro e solene que o universo propõe. É uma introdução que realmente chama a atenção do jogador.
No entanto, essa empolgação inicial não se sustenta durante toda a jornada. Para um título focado em ação visceral e combates intensos, a trilha sonora muitas vezes soa passiva demais, não acompanhando o ritmo frenético dos confrontos. Além disso, a ausência total de dublagem acaba pesando, especialmente porque, como mencionei, a narrativa é carregada de diálogos poéticos e subjetivos que se beneficiariam muito de uma interpretação vocal para ganhar peso.
Por outro lado, o design de som (SFX) merece elogios. Os efeitos dos golpes, o feedback sonoro das esquivas e a satisfação audível ao realizar um rebate perfeito são muito bem executados. No fim das contas, com exceção da trilha de abertura que é marcante, a parte sonora cumpre seu papel de forma apenas protocolar, sem o mesmo brilho que vemos na direção de arte.

Conclusão: Vale a pena jogar GRIME II?
No balanço geral, GRIME II se provou uma experiência extremamente positiva. Embora tenha suas arestas, o saldo é de um jogo muito bem executado que consegue prender o jogador do início ao fim.
A narrativa, embora instigante, mantém um tom de mistério que pode parecer confuso para quem busca respostas imediatas. Como o desfecho costuma amarrar essas pontas soltas e a jornada é longa, a percepção inicial é de um mundo onírico que nem sempre faz sentido lógico, mas que compensa na atmosfera.
O visual e as animações são, sem dúvida, nota 10. O nível de detalhamento e a fluidez dos movimentos são impressionantes, criando um espetáculo visual mesmo em meio ao seu estilo grotesco e complexo. Já a jogabilidade é o verdadeiro trunfo: excelente e acessível. Mesmo para quem lida com desafios de foco e atenção, como o TDAH, o game consegue ser intuitivo e recompensador o suficiente para manter o engajamento constante, permitindo que até os menos experientes no gênero consigam aprender e se divertir.
Por fim, embora a sonoplastia e a falta de dublagem deixem um pouco a desejar, ficando no patamar do “passável”, elas não tiram o brilho da obra. GRIME II é uma experiência excelente que eu recomendo sem hesitar. Mesmo que o estilo soulslike não seja o seu favorito, a diversão e a qualidade técnica presentes aqui podem te surpreender, assim como aconteceu comigo.
