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Análise: The Sinking City 2

The Sinking City 2 transforma a franquia em um excelente survival horror

Leonardo Coimbra ·

Embora The Sinking City 2 seja apresentado como uma sequência, a verdade é que a Frogwares decidiu fazer algo muito mais próximo de uma reimaginação da franquia. O primeiro jogo apostava principalmente na investigação, com ritmo mais lento e um combate que não era exatamente o centro da experiência. A sequência abandona boa parte dessa estrutura para assumir de vez o formato de survival horror, aproximando-se de referências como Resident Evil, Silent Hill, Cronos: The New Dawn e outros jogos do gênero.

A mudança poderia ser arriscada, mas existe uma vantagem importante: a Frogwares já conhece muito bem o universo de horror inspirado em H. P. Lovecraft. The Sinking City 2 aproveita essa experiência com a mitologia do autor e a coloca dentro de uma estrutura mais tradicional de exploração, combate, gerenciamento de recursos e puzzles.

Existe ainda um contexto particularmente incomum por trás do desenvolvimento. Logo no início, o jogo apresenta uma mensagem da equipe agradecendo ao jogador pela compra e explicando que aquele é o melhor trabalho que eles conseguiram realizar nas condições em que estavam. Parte da equipe de desenvolvimento está na Ucrânia, e o projeto foi produzido em meio à guerra que ainda atinge o país. O material enviado à imprensa para a análise inclusive trazia registros dessa realidade, algo que ajuda a dimensionar as circunstâncias em que The Sinking City 2 foi produzido.

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É impossível ignorar esse contexto ao conhecer a história do desenvolvimento, mas ele não é necessário para justificar o jogo. The Sinking City 2 consegue se sustentar por conta própria.

E aqui já vale entregar o principal spoiler desta análise: The Sinking City 2 é excelente. Na verdade, foi muito além das minhas expectativas e acabou se tornando um dos melhores survival horrors que já joguei.

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Arkham, sonhos e uma história que funciona

A aventura se passa em Arkham, cidade fictícia dos Estados Unidos situada no final da década de 1920. Uma série de tempestades muito fortes provoca uma inundação que toma conta da região, fazendo com que o nível da água suba cada vez mais e obrigando os moradores a abandonar suas casas.

É nesse cenário que conhecemos Calvin Rafferty, um estudioso do ocultismo que acaba envolvido em uma situação diretamente relacionada ao mundo dos sonhos. Sua noiva, Faye Bennett, encontra-se em uma espécie de transe, e logo descobrimos que os dois realizaram um ritual meses antes que acabou tendo consequências inesperadas. Faye ficou presa no mundo dos sonhos, deixando Calvin em busca de uma maneira de compreender o que aconteceu e trazê-la de volta.

The Sinking City 2 acerta ao não transformar essa situação em uma simples história sobre “reviver” Faye. Logo nas primeiras horas, Calvin consegue estabelecer uma conexão com o espírito de Faye, mas ela continua separada do próprio corpo. A partir daí, a personagem permanece presente durante boa parte da aventura, acompanhando o protagonista de maneira etérea.

Essa escolha dá à narrativa uma dinâmica muito interessante. Calvin e Faye conversam constantemente sobre o que está acontecendo, comentam as descobertas e reagem aos acontecimentos da aventura. A relação entre os dois é bem construída e ganha bastante força graças à qualidade da dublagem, que está entre os destaques da produção.

Também existem outros personagens espalhados por Arkham e pelos demais mapas, incluindo algumas presenças bastante inesperadas. Eles ajudam a ampliar a história e fazem com que a campanha não fique limitada à busca de Calvin por Faye.

O resultado é uma narrativa que consegue manter o interesse durante toda a aventura, enquanto utiliza progressivamente os elementos da mitologia lovecraftiana para explicar o que está acontecendo.

Uma cidade construída para causar desconforto

Arkham é um dos maiores acertos de The Sinking City 2. A cidade dos anos 1920 está praticamente dominada pela água, e essa característica aparece constantemente na construção dos cenários: ruas alagadas, chuva intensa, tempestades, construções deterioradas e ambientes completamente tomados pela umidade.

O primeiro grande mapa explora a própria cidade, com Calvin utilizando um barco para chegar às diferentes áreas que podem ser exploradas. Igrejas, cemitérios e apartamentos abandonados ajudam a estabelecer aquela estética decadente que combina tão bem com o universo de H. P. Lovecraft.

Depois, a aventura leva o jogador a um hospital, onde os espaços ficam mais fechados e claustrofóbicos. Corredores estreitos, iluminação pesada e muita escuridão fazem com que a sensação seja completamente diferente da exploração da cidade. O terceiro mapa, um mercado de peixes, segue outra direção e utiliza bastante do aspecto grotesco da ambientação. São cenários muito diferentes entre si, mas todos conseguem preservar a mesma identidade.

Visualmente, The Sinking City 2 também impressiona. Não existe Ray Tracing, e obviamente alguns elementos de iluminação poderiam ganhar qualidade com a tecnologia, mas isso não chega a comprometer a apresentação. Considerando que estamos diante de uma produção menor do que os grandes AAA do mercado, o resultado é bastante competente e, em vários momentos, realmente bonito.

Mais importante do que isso, porém, é a maneira como esses ambientes são utilizados para criar tensão. The Sinking City 2 é um jogo que consegue deixar o jogador desconfortável mesmo quando nada está acontecendo.

O som também faz parte do horror

O trabalho sonoro de The Sinking City 2 é fundamental para isso. É comum ouvir alguma coisa se movimentando, rastejando ou se retorcendo antes mesmo de descobrir onde está o inimigo. A água também está constantemente presente, seja pela chuva, seja por algum vazamento ou pelo som de algo escorrendo em uma área próxima.

Os vermes são um bom exemplo. Eles estão entre os inimigos mais comuns e rastejam pelos ambientes, podendo entrar em corpos humanos mortos e controlá-los. Mesmo quando não representam uma ameaça imediata, o simples som de um deles se movimentando já é suficiente para manter o jogador alerta.

Esse cuidado com os efeitos sonoros funciona em conjunto com a trilha e com a dublagem. O resultado é uma ambientação que raramente permite relaxar. Há sempre a sensação de que alguma coisa pode estar escondida logo depois da próxima porta.

É exatamente o tipo de desconforto que combina com a temática de Lovecraft: não apenas o medo daquilo que está na sua frente, mas também a expectativa de descobrir algo que você preferiria não encontrar.

Desempenho de The Sinking City 2

Tive a oportunidade de jogar The Sinking City 2 tanto no PlayStation 5 quanto no PC, e as diferenças entre as plataformas são perceptíveis.

No PS5 base, o jogador pode escolher entre os modos desempenho e qualidade. O primeiro entrega uma experiência bastante fluida, com 60 fps estáveis, mas cobra um preço na qualidade da imagem. O upscale deixa alguns elementos mais embaçados e existem problemas perceptíveis de iluminação e ruído em determinadas superfícies. Na chuva e em pisos de madeira, por exemplo, é possível notar bastante chuvisco na imagem.

Já o modo qualidade melhora consideravelmente a apresentação visual, mas reduz a taxa para 30 fps. Para um jogo desse tipo, considero uma troca pouco interessante. O combate exige respostas rápidas, principalmente porque os inimigos são agressivos e a esquiva é uma mecânica importante. Por isso, os 60 fps fazem uma diferença significativa na experiência.

No PC, utilizando um Ryzen 7 5800X, RTX 4070 Super e 32 GB de RAM DDR4, consegui jogar em Quad HD com tudo no máximo e permanecer acima dos 60 fps, com média próxima dos 70 fps. Com geração de quadros ativada, a taxa passou tranquilamente dos 120 fps. Vale pontuar que existe uma compilacão de sahders longa na primeira vez que liga o jogo que, no meu caso, demorou cerca de 6 a 7 minutos.

Ainda existem pequenos problemas, principalmente relacionados aos reflexos por SSR e alguns engasgos pontuais, mas nada que tenha comprometido a experiência. São também questões que já estavam sendo observadas pela equipe de desenvolvimento.

No geral, o desempenho no PC foi excelente dentro da configuração utilizada, enquanto no PS5 a escolha fica entre uma imagem melhor ou uma experiência mais fluida. Para este gênero, particularmente, prefiro ficar com os 60 fps.

A mudança para o survival horror funciona

É no gameplay que a transformação em relação ao primeiro The Sinking City fica mais evidente. Agora temos um survival horror de maneira muito mais clara, com exploração, combate, gerenciamento de recursos, backtracking e puzzles.

Os inimigos seguem diretamente a temática lovecraftiana. Além dos vermes que infectam corpos humanos, encontramos os Profundos, as sereias e outras criaturas, enquanto referências aos Mi-Go e a Yog-Sothoth aparecem ao longo da aventura. Cada inimigo possui seu próprio comportamento e padrão de ataque, mas existe uma característica que praticamente todos compartilham, que é a agressividade.

Eles não ficam simplesmente esperando o jogador chegar. Muitos perseguem Calvin por bastante tempo, mantendo a pressão mesmo quando a melhor opção parece ser fugir.

Os inimigos humanoides possuem ainda pontos fracos que podem ser explorados. Alguns apresentam uma espécie de massa alaranjada que pode ser atingida para provocar uma paralisação, enquanto tiros na cabeça causam mais dano e disparos nas pernas podem derrubar determinados inimigos. Também existe combate físico, embora as armas de fogo sejam obviamente a principal ferramenta de Calvin.

O arsenal é composto por pistola, escopeta, rifle, lança-granadas e metralhadora. A variedade é suficiente para criar diferentes abordagens durante os confrontos, sem transformar The Sinking City 2 em um shooter.

Essa preocupação em manter a tensão aparece também na quantidade de chefes. Eles existem, mas são relativamente poucos em comparação com outros jogos do gênero. Quando esses encontros acontecem, algumas caixas de recursos conseguem se reabastecer, garantindo que o jogador tenha acesso a munição e outros itens para enfrentar esses momentos.

Calvin também pode correr e possui uma esquiva dedicada, que acaba sendo utilizada constantemente durante os combates. Saber quando atacar, recuar ou simplesmente sair correndo faz parte da experiência. Em especial, se considerar como munição é escassa.

Investigação e puzzles mantêm uma parte do primeiro jogo viva

Apesar da transformação, The Sinking City 2 não abandona completamente as características que marcaram seu antecessor. A exploração ainda envolve bastante backtracking, com salas fechadas, itens escondidos, portas que precisam ser abertas posteriormente e áreas opcionais que recompensam quem se dispõe a explorar.

Os safe rooms também retornam como pontos de segurança durante a aventura. Mas é nos puzzles que The Sinking City 2 mais surpreende.

Em alguns títulos recentes do gênero, senti falta de desafios desse tipo. The Sinking City 2, por outro lado, talvez tenha até mais puzzles do que eu gostaria. E isso é um elogio à qualidade deles.

Muitos estão diretamente ligados à temática do jogo. Em vez de simplesmente encontrar uma chave convencional, é comum precisar lidar com mecanismos e objetos bastante estranhos para abrir portas, cofres e outras áreas. O aspecto grotesco desses elementos combina muito bem com o universo criado pela Frogwares. E uma mecânica interessante é que o jogador é punido caso erre a solução. Ou seja, a tensão exite em todo momento.

A investigação do primeiro jogo também encontra espaço aqui. Existe uma área específica na qual Calvin organiza as pistas encontradas durante a exploração e pode relacioná-las entre si. Quando duas informações possuem uma conexão, ligá-las corretamente pode revelar novas pistas e ajudar na resolução de determinados problemas.

Essa mecânica ainda possui uma recompensa adicional. Algumas investigações fornecem fichas especiais relacionadas aos poderes etéreos e interdimensionais do protagonista.

Essas fichas são utilizadas em uma maleta localizada nos safe rooms para desbloquear melhorias passivas. É possível, por exemplo, melhorar a velocidade de recarga, aumentar o dano contra diferentes tipos de inimigos, reduzir o dano recebido, recuperar mais energia ou produzir mais munição. O jogador monta, na prática, uma pequena build passiva para Calvin enquanto continua avançando pela campanha.

The Sinking City 2 é um survival horror excepcional

The Sinking City 2 foi muito além das minhas expectativas.

A Frogwares pegou uma franquia conhecida por uma proposta mais investigativa e reconstruiu praticamente toda a experiência para transformá-la em um survival horror. O mais impressionante é que essa mudança não parece uma tentativa de seguir uma tendência: o resultado realmente funciona como uma evolução natural de tudo aquilo que a desenvolvedora sabe fazer com o horror lovecraftiano.

The Sinking City 2 acerta na ambientação, no desenho dos inimigos, no combate, nos puzzles, na exploração e na progressão. A história também é um dos pontos altos, principalmente pela relação entre Calvin e Faye e pelo excelente trabalho de dublagem.

Existem problemas de polimento, principalmente quando comparamos sua apresentação visual com grandes produções do gênero. The Sinking City 2 não possui os mesmos recursos de um Resident Evil recente ou de um Silent Hill. Isso é evidente em alguns detalhes técnicos e de apresentação.

Mas essa diferença não impede o jogo de competir diretamente com eles naquilo que realmente importa para um survival horror. Em alguns momentos, inclusive, considero que ele consegue fazer certas coisas melhor.

A ambientação mantém a tensão durante praticamente toda a campanha, os inimigos são agressivos o suficiente para impedir que o jogador relaxe, os puzzles são frequentes e bem integrados à proposta e a investigação traz de volta uma parte importante da identidade do primeiro jogo sem comprometer a nova estrutura.

E existe algo bastante especial em ver tudo isso funcionando depois de saber em que circunstâncias parte da equipe precisou desenvolver o projeto. No final, The Sinking City 2 não é apenas uma sequência. É uma reinvenção completa da franquia que consegue entregar uma experiência muito superior à que eu esperava encontrar.

Eu amei The Sinking City 2. O jogo não apenas se tornou uma das maiores surpresas que tive com um survival horror, como também entrou facilmente na lista dos melhores que já joguei. Existem detalhes que poderiam receber mais polimento, mas são pequenas questões diante de um projeto que, no conjunto, funciona muito bem.

Para quem gosta de survival horror e da temática de H. P. Lovecraft, The Sinking City 2 é uma experiência que vale muito a pena. E, no meu caso, é também um daqueles jogos que terminam deixando uma vontade genuína de voltar para Arkham. Felizmente o New Game + está presente para os que se apaixonarem pelo game!

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95 Nota

The Sinking City 2

Obra-Prima

The Sinking City 2 foi muito além das minhas expectativas. Apesar de alguns problemas de polimento, é um excelente survival horror, com uma ambientação fantástica, ótima história, bons puzzles e uma das melhores utilizações da temática lovecraftiana que encontrei no gênero.

Desenvolvedor Frogwares
Publicadora Frogwares
Lançamento 18/08/2026
Plataformas Xbox Series X|S, PC (Microsoft Windows), PlayStation 5
Plataforma jogada PC
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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