Anunciado em 2021, Marvel’s Wolverine teve uma produção de mais de cinco anos marcada por turbulências, principalmente devido ao massivo ataque hacker sofrido pela Insomniac Games, que vazou inúmeras informações cruciais e até mesmo uma build jogável da época. Contudo, depois de tanta tempestade, o aguardado jogo do carcaju finalmente foi lançado, e temos em primeira mão a nossa análise completa.
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Ação desenfreada e muita violência
O que um jogo do Wolverine precisa para ser bom? Muita violência, pois isso está intrinsecamente ligado ao DNA do mutante. E a Insomniac não decepciona: temos em mãos um título de ação visceral que alterna constantemente entre combates frenéticos, trechos de stealth (que aproveitam os sentidos aguçados de Logan), desafios de plataforma, sequências intensas de moto e batalhas insanas contra chefes.
A os comandos do jogo são diretamente simples, onde temos quadrado para ataques rápidos, triângulo para golpes pesados, círculo para esquiva, X para saltar e L1 para defesa e parry. O L2, combinado com outros botões, aciona até quatro dos seis golpes especiais equipáveis de Logan, enquanto o R1 executa um golpe especial com as garras (cujo nome omitiremos para evitar spoilers).
Apesar de simples, a jogabilidade possui nuances que trazem profundidade ao gameplay. Segurar o quadrado, por exemplo, faz Logan desferir um chute capaz de quebrar a guarda inimiga; já desviar de um projétil no momento exato permite rebatê-lo de volta contra o atirador.
Todos os oponentes possuem duas barras em combate: uma de saúde e outra de atordoamento (que, ao ser preenchida, atordoa o inimigo e o deixa de guarda baixa para receber finalizações). Enquanto Wolverine também possui dois medidores: o de vitalidade e o de Fúria.
A Fúria é essencial para revivê-lo caso o HP zere; ao acumular três pontos cheios, o mutante entra em um modo sanguinário, distribuindo ataques críticos em todos os inimigos.
Algo importante para citar é que do começo ao fim vai surgindo inimigos novos com condições próprias para derrotá-los, fazendo com que tenhamos uma boa variedade no combate. Entre eles temos membros dos Reavers, ninjas do Tentáculo e os clássicos sentinelas.

Combate, evolução e problemas
Um dos pontos altos está nas lutas contra os chefes, que trazem vilões clássicos do carcaju e dos X-Men. Embora a premissa de aparar, desviar e atacar no momento certo seja constante, os cenários e as regras de cada embate garantem desafios únicos. Muitas vezes, você se verá com a vida por um fio, dependendo puramente da gestão da sua barra de Fúria para sobreviver.
Outro grande acerto são as “Portas Mentais” desafios opcionais que surgem no decorrer da campanha. Elas oferecem provações como sobreviver a hordas, eliminar alvos sob condições específicas ou o grande destaque: os desafios de travessia. Neles, o jogador é testado a usar toda a agilidade de Logan em um curto limite de tempo, escalando as paredes, saltando por plataformas e deslizando por obstáculos até cruzar a linha de chegada.
Superar as Portas Mentais rende adaptações no DNA de Wolverine, liberando efeitos passivos como regeneração de vida aprimorada, aumento de dano crítico e recarga acelerada de habilidades. A progressão também se dá explorando o cenário em busca de baús com “Materiais” (usados para desbloquear novos uniformes que aumentam a vida máxima) e investindo pontos de experiência em uma árvore de habilidades para liberar novos golpes e extensões de combos.
Infelizmente, a jogabilidade esbarra em três problemas críticos. O primeiro é o sistema de mira automática (auto-target), que trava no inimigo mais próximo e se solta de forma imprevisível quando você se afasta, prejudicando severamente o fluxo das lutas quando há muitos alvos na tela. O segundo é a câmera, que já é teimosa por si só, mas, quando combinada com a falha da mira automática, realiza cortes drásticos para ângulos que dificultam enxergar a ação.
Por fim, os Quick Time Events são totalmente descartáveis. Exceto em um raro momento contra o Dentes-de-Sabre, não há qualquer punição por errar os botões na tela; a cena de ação simplesmente continua de qualquer forma.



Gráficos e Áudio
Visualmente, Marvel’s Wolverine é belíssimo. As screenshots isoladas de trailers definitivamente não refletem o produto final. Os cenários são vastos, vivos e incrivelmente bem produzidos. Os personagens são marcantes e fiéis às suas contrapartes dos quadrinhos, mesmo com a esperada “militarizada” nos trajes. A única ressalva estética fica para os pelos dos braços de Logan, que são tão escuros e espessos que acabam formando um contorno bizarro, fazendo o personagem parecer um cartoon inserido em um cenário fotorrealista em certas cenas.
A dublagem original em inglês está fabulosa, acompanhada de uma trilha musical e de um som ambiente excelentes. A localização brasileira, por outro lado, deixa a desejar no protagonista, pois a voz nacional de Wolverine soa excessivamente calma e baixa, falhando completamente em transmitir a fúria característica do canadense.

Um enredo que funciona, mas decepciona e distorce o cânone
É compreensível que um universo alternativo traga adaptações, mas a Insomniac fez mudanças tão drásticas que acabaram distorcendo a essência de Logan e da mitologia ao seu redor. O roteiro transforma Wolverine no absoluto centro do mundo, apropriando-se de vilões clássicos dos X-Men para atuarem como inimigos exclusivos dele. Uma escolha narrativa desnecessária, visto que o mutante possui arcos e inimigos próprios de sobra. Elementos fundamentais do personagem, como o traumático projeto Arma X, são negligenciados e reduzidos a dois rápidos flashbacks de dois segundos.
Neste universo, os X-Men não existem. No lugar deles, vemos Logan integrando a “Team X”, uma equipe formada ao lado de vilões como Dentes-de-Sabre e Mística, agindo heroicamente sob a liderança de Nathaniel Essex (o Senhor Sinistro), que assume o papel de mentor paternal à la Charles Xavier.
Jean Grey marca presença, mas inicialmente sendo uma integrante dos Morlocks (mesmo sem exibir nenhuma mutação física aparente que justificasse o exílio) e, por mais que esteja presente na maior parte da história e sirva como principal parceira de Logan, serve como um Deus Ex Machina de fácil inclusão para resolver alguns problemas que surgem na reta final.
A sensação que fica é a de que o roteiro foi reescrito às pressas para se distanciar do material vazado em 2023. Ironicamente, o esforço para driblar os hackers resultou em uma trama remendada, que não faz jus ao peso do personagem e ignora o rico universo em que ele está estabelecido.

Conclusão da análise de Marvel’s Wolverine
Marvel’s Wolverine entrega a dose visceral de ação e brutalidade que os fãs exigiam, sustentado por um combate divertido, mecânicas de finalização empolgantes e desafios de exploração recompensadores. Contudo, o peso de seu desenvolvimento conturbado fica evidente em suas falhas técnicas como a câmera imprecisa e os comandos sem impacto de QTE e, principalmente, em suas decisões narrativas questionáveis.
Ao tentar subverter expectativas e fugir do vazamento de 2023, o roteiro sacrifica o cânone mutante, esvazia personagens clássicos e entrega uma trama que parece um quebra-cabeça montado com as peças erradas. No fim das contas, a estreia de Logan pelas mãos da Insomniac é um jogo mecanicamente ágil e visualmente belo, mas que tropeça na própria ambição ao tentar reescrever o legado de um dos maiores ícones da Marvel invés de entregar algo básico e que funciona.

