Análise: Halloween

Uma adaptação que entende o material original

Leonardo Coimbra ·

Halloween chega como uma adaptação do clássico filme de terror de 1978, deixando de lado as versões mais recentes da franquia para voltar às origens de Michael Myers. Desenvolvido pela IllFonic, estúdio conhecido principalmente por seus jogos multiplayer assimétricos, o título mantém a tradicional estrutura de perseguição entre assassino e sobreviventes, mas traz uma novidade importante: uma campanha offline para um jogador.

E é justamente esse modo single player que ganha destaque nesta análise. Em vez de depender de partidas online e de encontrar outros jogadores para aproveitar a experiência, Halloween permite assumir o controle de Michael Myers em uma série de capítulos que recriam a atmosfera e os acontecimentos do filme original. A proposta funciona melhor do que eu esperava, principalmente porque o jogo demonstra entender que Michael não é apenas um assassino, mas também um stalker que observa suas vítimas antes de atacá-las.

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Expandindo a história de 1978

A história acompanha Michael Myers depois de sua fuga do sanatório e durante seu retorno à cidade natal, seguindo de maneira bastante próxima os acontecimentos do filme de 1978. A campanha é dividida em seis capítulos, cada um apresentando determinados alvos que precisam ser eliminados, enquanto o jogador também recebe uma área relativamente aberta para explorar e aterrorizar outros moradores.

O roteiro não tenta reinventar a história original, e talvez nem precisasse. O que funciona melhor são os pequenos acréscimos feitos para preencher algumas lacunas do filme, como a própria fuga de Michael e o momento em que ele consegue seu tradicional macacão e sua máscara. São detalhes que não estavam necessariamente presentes na obra original, mas ajudam a transformar acontecimentos conhecidos em uma experiência jogável.

A estrutura também dá liberdade para que cada capítulo seja encarado de maneiras diferentes. É possível simplesmente perseguir os alvos e cumprir os objetivos, mas o jogo recompensa quem dedica tempo para observar a cidade, entender a rotina dos moradores e construir uma situação de medo antes de partir para o ataque. Isso acaba aproximando a campanha daquilo que torna Michael Myers tão marcante.

Uma Haddonfield que parece saída do filme

Se existe um elemento que imediatamente ajuda Halloween a funcionar, é sua ambientação. O jogo consegue reproduzir muito bem a identidade do filme de 1978, desde as casas e ruas durante a noite até as roupas, objetos e outros detalhes inspirados na estética dos anos 70.

A escuridão também não está ali apenas para criar uma aparência sombria. Ela faz parte da própria identidade de Michael e se conecta diretamente ao funcionamento do jogo. Em diversos momentos, podemos simplesmente observar uma vítima à distância, com a máscara branca de Michael aparecendo ao fundo, reproduzindo aquela sensação de que existe alguém acompanhando seus movimentos sem que ela perceba.

Essa característica é reforçada pela câmera em primeira pessoa e pelas próprias mecânicas de stalking. Michael pode observar os moradores e acompanhar suas rotinas antes de decidir como e quando atacar. Quanto mais medo ele provoca, maior seu nível de stalking e, consequentemente, maior a pontuação obtida pelas mortes.

Mas talvez o maior responsável por vender essa ambientação seja o som. A trilha sonora resgata diretamente o tema clássico de Halloween e é utilizada de maneira muito eficiente para reforçar a conexão com o filme. É um daqueles casos em que a música não funciona apenas como acompanhamento, mas como parte fundamental da identidade da experiência.

O prazer de ser Michael Myers

Embora a estrutura geral seja familiar para quem conhece os trabalhos da IllFonic, jogar como Michael Myers é, de longe, a parte mais interessante da experiência. No single player, cada capítulo apresenta objetivos específicos, mas existe espaço para explorar o cenário e construir a situação de medo antes de executar suas vítimas.

O jogo oferece diferentes maneiras de realizar os assassinatos. É possível simplesmente perseguir alguém e utilizar a faca ou outras armas, mas as execuções mais interessantes acontecem quando conseguimos preparar a situação para realizar uma morte específica. As mortes ambientais são o grande destaque nesse aspecto, permitindo utilizar elementos do cenário para eliminar as vítimas de maneiras diferentes.

E o ambiente não serve apenas como ferramenta para as execuções. É possível destruir linhas telefônicas para impedir que os moradores peçam ajuda, desligar as luzes para controlar melhor a escuridão e utilizar o cenário para criar oportunidades de perseguição. Até os cachorros precisam ser considerados, já que podem perceber a presença de Michael e alertar os moradores.

O próprio movimento do personagem também reforça essa fantasia. Michael consegue se deslocar pela escuridão de maneira quase sobrenatural, reaparecendo em diferentes pontos do cenário e utilizando as áreas sem iluminação para se aproximar das vítimas. É uma mecânica simples, mas que conversa diretamente com a maneira como o personagem é retratado.

Do outro lado, os sobreviventes precisam utilizar o cenário para escapar. Eles podem se esconder, andar agachados para fazer menos barulho, fechar portas, correr, pular janelas e tentar chamar ajuda. O som também é importante para denunciar a presença dos personagens, criando uma dinâmica de perseguição que funciona especialmente bem quando o jogador consegue preparar o terreno antes do ataque.

O problema é que a inteligência artificial nem sempre acompanha essas boas ideias. Os NPCs apresentam comportamentos bastante inconsistentes e, conforme aprendemos seus padrões, algumas situações que deveriam parecer tensas acabam ficando previsíveis. Isso permite explorar determinadas falhas da IA para conseguir mortes com pontuação máxima, mas também reduz um pouco a sensação de imprevisibilidade que seria importante para um jogo desse tipo.

Uma boa surpresa, mas com ressalvas

Halloween acabou me surpreendendo positivamente. Eu não esperava encontrar uma experiência single player tão bem encaixada em uma fórmula que tradicionalmente depende do multiplayer, e o resultado demonstra que a proposta pode funcionar mesmo para quem não está interessado em jogar online.

Halloween está longe de ser perfeito. Além da IA inconsistente, existem algumas animações e expressões faciais que poderiam ser melhores, assim como determinadas movimentações do próprio Michael Myers que não têm o refinamento esperado. São problemas perceptíveis, mas que não chegam a comprometer a experiência como um todo.

A questão mais complicada está no custo-benefício quando consideramos apenas a campanha. Para quem é fã de Halloween e quer uma experiência interativa baseada diretamente no filme de 1978, existe bastante coisa aqui para apreciar. A ambientação, a trilha sonora e principalmente a possibilidade de assumir o papel de Michael Myers fazem a adaptação funcionar.

Por outro lado, quando colocamos também o multiplayer na equação, a proposta se torna consideravelmente mais interessante. A tradicional estrutura assimétrica de quatro sobreviventes contra um assassino continua sendo parte importante do projeto e amplia bastante a longevidade do jogo, especialmente para quem pretende jogar com amigos.

No fim, Halloween é um jogo que conseguiu me surpreender justamente por fazer algo que eu não esperava que funcionasse tão bem: transformar a fantasia de ser Michael Myers em uma experiência single player consistente. Ele tem suas limitações técnicas e uma inteligência artificial que poderia ser mais competente, mas entende muito bem a atmosfera do filme original e encontra boas maneiras de transformar o comportamento de stalker do personagem em mecânicas. Para fãs da franquia ou de jogos assimétricos de perseguição, é uma adaptação que merece atenção.

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75 Nota

Halloween: The Game

Bom

Halloween entrega uma campanha single player competente e fiel ao clássico, mas seu valor aumenta consideravelmente quando o multiplayer também entra na equação, embora tenha que considerar as limitações do jogo.

Desenvolvedor Illfonic
Publicadora Illfonic, Gun Interactive
Lançamento 08/09/2026
Plataformas Xbox Series X|S, PC (Microsoft Windows), PlayStation 5
Plataforma jogada PS5
Dublado PT-BR Não
Legendado PT-BR Sim
Cópia Cedida pela publicadora

Leonardo Coimbra

Mestre supremo do Ultima Ficha, não manda nem em seus próprios posts. Embora digam que é geração PS2, é gamer desde o Atari e até hoje chora pedindo um Sonic clássico e decente. Descobriu em FF7 sua paixão por RPG que dura até hoje. Eventualmente é administrador e marketeiro quando o chefe puxa sua orelha com os prazos.

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