Graveyard Keeper 2 chega como continuação direta da proposta estabelecida pelo primeiro jogo, mantendo a mistura de gerenciamento, exploração, crafting e progressão em pixel art. É aquele tipo de produção que facilmente pode consumir dezenas de horas, principalmente porque existe uma quantidade enorme de sistemas que vão sendo desbloqueados e aprimorados ao longo da jornada.
E uma das primeiras surpresas positivas está justamente em algo que eu não esperava encontrar com tanta força. Graveyard Keeper 2 traz uma história realmente interessante.
Assumimos o papel de um Coveiro sem nome, que não se lembra de seu passado e sabe apenas que é imortal e que estava sendo torturado antes dos acontecimentos do jogo. Logo no início, ele conhece Lauro, uma caveira que se torna sua companheira. E, curiosamente, é a caveira que acaba tendo nome enquanto o protagonista permanece sem identidade definida. A relação entre os dois funciona muito bem e Lauro rapidamente se transforma em um dos grandes destaques da aventura.
Isso acontece porque Graveyard Keeper 2 não trata seus personagens apenas como ferramentas para entregar missões. Existe personalidade em boa parte deles, com situações absurdas, comportamentos inesperados e histórias próprias que ajudam a construir aquele mundo. Temos, por exemplo, uma freira que deveria transmitir uma imagem mais celestial, mas que é tão agressiva e maluca que acaba sendo temida pelos moradores, além de um prefeito com características bastante peculiares. São personagens que conseguem tirar o jogo do simples gerenciamento de recursos e dão mais identidade à experiência.
A história também funciona como uma maneira de conectar o protagonista ao universo do primeiro jogo, ao mesmo tempo em que apresenta novos acontecimentos e mistérios sobre seu passado.
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Um mundo medieval com muita personalidade
Outro ponto que merece destaque é a ambientação. Graveyard Keeper 2 mantém a estética em pixel art, mas não fica preso a uma apresentação puramente bidimensional. A iluminação é mais elaborada, existem elementos com aparência tridimensional em determinados cenários e efeitos como água ajudam a dar mais vida às áreas exploradas.
O resultado é um jogo visualmente simples em sua essência, mas muito bem trabalhado nos detalhes. Vilas, construções, o cemitério, a igreja e as áreas tomadas pelos zumbis possuem uma identidade visual bastante coerente com a proposta, criando um mundo medieval decadente que combina perfeitamente com o humor e as situações absurdas da aventura.
E existe outro elemento que eleva bastante essa ambientação uqe é a dublagem.
Todos os personagens são dublados, inclusive figuras como Lauro e o burro responsável por entregar os corpos. As vozes combinam com a proposta medieval do universo, utilizando uma interpretação em inglês que remete a uma Inglaterra de séculos atrás. É um trabalho que dá personalidade aos personagens e torna as conversas muito mais interessantes.
A combinação entre pixel art, iluminação, direção de arte e dublagem acaba sendo uma das grandes qualidades de Graveyard Keeper 2. É um jogo visualmente simples apenas quando olhamos para sua técnica de forma superficial; existe bastante cuidado na maneira como esse mundo é apresentado.

Um ciclo de progressão que não para de se expandir
É no gameplay, porém, que Graveyard Keeper 2 realmente mostra suas ambições.
Durante minha experiência, uma comparação acabou surgindo naturalmente: Graveyard Keeper 2 pode ser entendido como uma espécie de Stardew Valley com zumbis e uma temática completamente diferente. A estrutura de progressão compartilha essa capacidade de transformar tarefas aparentemente simples em um ciclo contínuo de coleta, produção, exploração e evolução.
Você começa realizando atividades básicas, mas rapidamente percebe que praticamente tudo está conectado. É preciso coletar madeira, diferentes tipos de materiais, pedra, cobre, ferro, areia e diversos outros recursos. Esses materiais servem para criar novos equipamentos, estruturas e objetos, que por sua vez permitem acessar outras possibilidades dentro do jogo.
A progressão acontece através das chamadas inspirações, que funcionam como uma enorme árvore de habilidades. Existem diferentes categorias de experiência, obtidas conforme realizamos atividades específicas. Uma está mais relacionada à força e produção, outra à coleta e habilidades gerais, enquanto uma terceira está diretamente ligada aos zumbis/mortos e às atividades relacionadas a eles.



Essa divisão é interessante porque faz com que praticamente qualquer coisa que você esteja fazendo contribua para algum tipo de evolução. Plantar, coletar, produzir, construir, trabalhar com cadáveres ou utilizar zumbis são atividades que alimentam esse sistema.
E é aí que o ciclo de Graveyard Keeper 2 funciona muito bem: você precisa de determinado recurso, então realiza uma atividade para consegui-lo; essa atividade gera experiência; a experiência permite desbloquear uma nova habilidade; a habilidade permite construir algo melhor; e isso abre caminho para novas atividades. O jogo está constantemente criando uma razão para você continuar fazendo mais alguma coisa.

Quando os mortos se tornam parte da produção
A utilização dos zumbis é provavelmente uma das mecânicas mais características de Graveyard Keeper 2. Como Coveiro, você obviamente terá contato constante com cadáveres, mas o jogo transforma essa atividade em um sistema de progressão próprio. Os corpos podem ser dissecados para retirar diferentes partes, como pele, ossos, órgãos, gordura, cérebro e outras partes, e esse processo influencia a qualidade do cadáver que será enterrado e, consequentemente, as recompensas obtidas.
Os certificados resultantes desse trabalho podem ser convertidos em dinheiro, criando mais uma ligação entre uma atividade e outra. Ao mesmo tempo, todo esse processo gera experiência relacionada a este ofício.
Com o avanço da aventura, porém, eles deixam de ser apenas cadáveres que chegam ao cemitério. É possível reviver os copos. Os zumbis podem ser utilizados para auxiliar em diferentes atividades e também podem ser enviados para combater e ajudar na recuperação de territórios tomados pela invasão. Eles próprios possuem progressão e habilidades que podem ser aprimoradas.

Isso cria praticamente uma pequena cadeia produtiva dentro do jogo. O jogador constrói estruturas, coleta matéria-prima, transforma recursos, aprimora suas habilidades e utiliza os zumbis para automatizar ou auxiliar em parte desse processo.
Sua área de operação também vai crescendo em possibilidades. Há a casa, plantações, espaços de produção, laboratório, igreja e as áreas relacionadas aos cadáveres e aos zumbis. A cidade, por outro lado, funciona muito mais como espaço de interação, negócios e missões.
É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas existe uma lógica interna bastante interessante quando conseguimos compreender como esses sistemas se relacionam.

O problema é descobrir como tudo funciona
E aqui está, para mim, o principal problema de Graveyard Keeper 2. O jogo possui sistemas demais e explica pouco. E muitas vezes, não explica nada.
Não estou falando simplesmente que ele não pega na mão do jogador. Isso, por si só, não seria um problema. A questão é que em diversos momentos a experiência exige que o jogador descubra, praticamente por tentativa e erro, o funcionamento de determinadas mecânicas.
Um exemplo bastante claro acontece quando os primeiros zumbis são desbloqueados. Eles inicialmente aparecem normalmente, mas, quando passam oficialmente a fazer parte da sua estrutura, simplesmente caem no chão. O jogo não deixa claro o que aconteceu ou o que deveria ser feito. Para quem ainda não conhece a franquia, é perfeitamente possível interpretar aquilo como se os zumbis tivessem morrido ou deixado de funcionar.
Só depois descobrimos que eles precisam ser tratados de uma determinada maneira e que funcionam quase como uma peça dentro da estrutura de produção do jogo.
Esse tipo de situação se repete em outras partes. Em determinados momentos, você sabe que precisa fazer alguma coisa, mas não necessariamente sabe onde, como ou em qual ordem. A árvore de habilidades, as missões e os diferentes sistemas fornecem pistas, mas nem sempre existe uma conexão suficientemente clara entre elas.
Isso pode ser interessante quando estamos falando de descoberta, mas em Graveyard Keeper 2 essa complexidade às vezes passa do ponto. Houve momentos em que fiquei realmente perdido e frustrado, não porque a atividade fosse difícil, mas porque eu não tinha informação suficiente para entender qual deveria ser o próximo passo.
É uma diferença importante. Graveyard Keeper 2 não precisa simplificar seus sistemas, porque justamente essa complexidade é uma das suas maiores qualidades. O que faltou foi uma orientação melhor para apresentar essa complexidade ao jogador.

Uma experiência enorme para quem entra no ritmo
Apesar dessa dificuldade de comunicação, Graveyard Keeper 2 consegue entregar exatamente aquilo que pretende, um jogo de gerenciamento extremamente profundo, com uma progressão que parece não ter fim.
É difícil imaginar alguém chegando às 30 ou 40 horas sem ainda encontrar novas possibilidades, estruturas, recursos ou sistemas para explorar. A quantidade de conteúdo é grande e existe sempre alguma coisa que pode ser aprimorada.
O mais interessante é que essa progressão não acontece de maneira totalmente artificial. Você está constantemente realizando atividades porque precisa de alguma coisa e, enquanto faz isso, acaba evoluindo outras áreas do personagem, desbloqueando novas inspirações e abrindo novas possibilidades de produção. É um ciclo que consegue prender justamente porque uma tarefa leva naturalmente à outra.
Por isso, quem já conhece Graveyard Keeper ou gosta desse tipo de jogo provavelmente encontrará aqui uma continuação bastante fácil de recomendar. A base é sólida, os sistemas são numerosos e a quantidade de conteúdo é suficiente para justificar dezenas de horas.
O problema é que o mesmo elemento que torna o jogo tão rico também pode afastar parte dos jogadores. Para aproveitar toda essa estrutura, é preciso ter paciência para experimentar, consultar as diferentes árvores de progressão e, muitas vezes, descobrir sozinho como as peças se encaixam.
